Automóvel: Aposta de risco nos carros eléctricos

Foto: AFP
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17 setembro 2009 – Handelsblatt (Dusseldorf)

No Salão Automóvel de Franckfurt, de 17 a 27 de Setembro, este ano os veículos eléctricos levam a palma às grandes cilindradas. Mas para o diário alemão Handelsblatt, é uma moda que pode não ter consequências práticas.

A Europa foi afectada pela febre do automóvel eléctrico. O Salão Automóvel de Frankfurt (IAA) foi especialmente atingido: não há um único construtor de fora. A Volkswagen anunciou a produção em série, até 2013, de um pequeno modelo totalmente eléctrico, a Mitsubishi deverá fazer igual antes do fim do ano e a BMW tem prevista a comercialização da sua versão através de uma sub-marca.

Foi espantosa a rapidez com que decisores políticos económicos e científicos se puseram de acordo. As estimativas do Governo Federal indicam que, dentro de dez anos, haverá um milhão de automóveis eléctricos nas estradas alemãs. A Siemens é mais optimista: 4,5 milhões. Algo capaz de electrizar até os directores financeiros mais assustadiços. Mas estas previsões terão fundamento? Perante a queda das vendas, o debate sobre o automóvel eléctrico começa a escapar ao controlo. Aquilo que, ontem, era uma quimera, é visto hoje como o grande conceito comercial de amanhã.

Uma questão de boa consciência

O automóvel eléctrico é, antes de mais, a projecção das nossas boas intenções e um pretexto para pedir subsídios. Os automóveis eléctricos não consomem gasolina, não emitem gases poluentes nem contribuem para degradar o clima. E são silenciosos. O antigo responsável da SAP, Shai Agassi, chamou Better Place à sua "start-up". Pretende electrificar o parque automóvel da Califórnia e de Israel. No entanto, as declarações deste tipo são, ainda, argumentos de marketing, uma vez que a tecnologia dá os primeiros passos.

As actuais baterias de iões de lítio não permitem percorrer distâncias longas. Ninguém sabe como irão envelhecer, nem quantos ciclos de recarga suportarão. São pesadas e requerem manutenção. Tudo isto limita a utilização do automóvel eléctrico e encarece a produção. Se os construtores o vendessem pelo custo real, um automóvel eléctrico pequeno custaria mais de 40 000 euros.

Claro que os preços baixariam e a capacidade das baterias aumentaria, depois de a produção em série ter começado. Mas, para os construtores, o custo continua a ser assombroso. Para além de obrigar a rever de uma ponta a outra a cadeia de produção. Um automóvel sem caixa de velocidades requer adaptações inéditas e a carroçaria tem de ser mais leve, em fibras de carbono em vez de aço para compensar o peso da bateria. É uma verdadeira revolução do automóvel.

A isto há a acrescentar as infra-estruturas: demoraria anos a instalar o número suficiente de tomadas de electricidade, mesmo que isso só fosse feito nas grandes cidades. Os grandes parques automóveis de recarga terão de ser inteligentemente geridos para não sobrecarregar a rede eléctrica nacional. O sistema será tanto mais interessante do ponto de vista ecológico, quando maior percentagem de electricidade for produzida sem impacto sobre o ambiente.

Dependência dos subsídios

O futuro do automóvel eléctrico depende dos incentivos estatais. Sabendo-se que os grandes construtores, como a Volkswagen e a Opel, estão a preparar-se para anos difíceis, é fácil antever quantos irão desfilar por Berlim, para pedir ajuda ao desenvolvimento de automóveis eléctricos. A febre eléctrica poderá, no entanto, ser tratada, recordando as promessas não cumpridas do automóvel a hidrogénio e da pilha a combustível. Até agora, nenhum destes "grandes progressos" permitiu que a indústria obtivesse o mínimo lucro. Os automóveis eléctricos poderão também aterrar no cemitério dos projectos subsidiados.

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