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Na sequência de um referendo histórico, realizado no dia 18 de setembro, a Escócia escolheu permanecer no Reino Unido. O “não” à independência venceu com 55,3% dos votos.

Em resposta a este resultado, o diário de Glasgow The Herald insistiu em realçar a elevada taxa de participação neste referendo: 84,5%. Um recorde no Reino Unido. Para o jornalista Andrew McKie, “a taxa de participação por si só representa uma vitória para a Escócia”:

O resultado é suficientemente decisivo para evitar que este assunto seja novamente debatido durante uma geração inteira, desde que seja conferido mais poder ao Holyrood [o Parlamento escocês]. […] A Escócia pode ter orgulho no debate que conduziu, uma vez que permitiu evitar, em grande parte, a política partidária […] e mobilizou pessoas que, até à data, nunca se tinham envolvido na vida política.

O The Scotsman, que fez campanha a favor do não, considera, por sua vez, que o referendo prova que, “nas circunstâncias certas, a política consegue entusiasmar e motivar". Para o diário, o facto de ter permitido aos jovens de 16 e 17 anos votar é a lição mais importante que se deve retirar deste episódio político para melhorar o compromisso democrático.

Notou-se claramente [...] a energia e o entusiasmo com o qual este grupo encarou esta ocasião de participar na conversa nacional. […] Nunca fez sentido estes jovens terem a possibilidade de trabalhar, pagar impostos, casar-se, divorciar-se, integrar o exército, mas não poderem participar no processo de decisão do país. Chegou a hora de alargar esta prática a outras eleições.

O The New Statesman recorda a reação do chefe do partido dos independentistas escoceses, Alex Salmond, que admitiu a derrota e declarou que a Escócia decidira, “nesta fase”, não se tornar independente. Para o jornal, trata-se de

uma referência mal disfarçada a um “neverendum” [um referendo sem fim], temido pelos unionistas. Tendo em conta que o resultado superou as previsões feitas há dois anos, Salmond estimou que havia potencial para uma segunda votação num futuro próximo.

Por seu lado, o The Times realça o discurso do primeiro-ministro britânico David Cameron, que declarou que a votação permitiu muito provavelmente encerrar o debate “para toda uma vida”. Além disso, acrescenta o jornal,

o primeiro-ministro indicou que iria certificar-se de que a promessa de transferir poderes a nível fiscal e em termos de proteção social seja plenamente cumprida, e que serão apresentadas propostas a respeito desta matéria em novembro. […]

Para os unionistas ingleses, a vitória do “não” pressupõe o reconhecimento da necessidade de se fazer este tipo de concessões. “Graças a Deus, o meu país continua intacto”, comenta Daniel Hannan no diário conservador britânico The Daily Telegraph. O jornalista encara a concessão de mais poder à Escócia como algo inevitável,

não apenas porque todos os partidos o prometeram, mas porque não existe outra forma de unir dois partidos. A autonomia da Escócia iria, mais tarde, ter implicações nas três outras partes do país, provocando desta forma uma descentralização em massa.

Na Catalunha, onde este referendo foi acompanhado de perto, o resultado suscitou também muitas reações. Para Enric Hernández, diretor do diário de Barcelona El Periódico,

o pesadelo de um efeito dominó, que afetaria a Catalunha, Flandres, a Córsega ou a Padânia, mantém acordadas muitas chancelarias. O espelho escocês reflete a sã inveja do independentismo catalão, mas também o seu oposto. A preocupação que este referendo suscita em toda a Europa reforça os anticorpos dos Estados face a qualquer tentativa separatista.