As eleições autárquicas em França e em Espanha viram nascer um novo fenómeno político nestes dois países: o aparecimento de um embrião de tripartidismo, com a afirmação de partidos que não fazem parte dos que alternam habitualmente no poder – alguns não existiam até há bem poucos anos e nasceram todos na vaga de consequências da crise económica.

Em Espanha, o resultado das eleições autárquicas em Andaluzia, a 22 de março, ganhas pelo Partido socialista (PSOE) contra o Partido popular viram a irrupção de duas novas forças políticas, o Podemos, e o Ciudadanos, que obtiveram um quarto dos votos e são hoje em dia respetivamente a terceira e quarta força política da região. Foi o primeiro compromisso eleitoral do ano em Espanha: as eleições autárquicas estão previstas para maio e as legislativas para o outono. O Podemos, que obteve um resultado inesperado nas eleições europeias de 2014 está para a Espanha como o Syriza está para a Grécia: um partido que quer acabar com a política de austeridade imposta na Europa. Por sua vez o Ciudadanos, que ocupa uma posição mais centrista, foi criado em 2006 e registou um crescimento fulgurante, apoiado por eleitores descontentes com a crise económica e a corrupção no seio dos principais partidos.

Trata-se de um “terramoto político”, escreve José Oneto no site República de las Ideas. Segundo este,

o bipartidismo sobre qual está baseado o funcionamento deste país desde o início da transição democrática está prestes a desaparecer.

O El País atribui, no entanto, o fim do bipartidismo tradicional às novas exigências democráticas dos cidadãos:

Uma nova geração está a aceder ao poder e a pressão dos cidadãos para que se mude a forma de representar os interesses dos eleitores e os métodos de governação é evidente. Não há dúvida de que os eleitores estão à procura de novas soluções para os problemas económicos e sociais sem quebrar um sistema democrático no qual pelos vistos continuam a acreditar. Mas seria totalmente errado qualificar o que se passa como uma crise do bipartidismo, como o repetem de forma obsessiva alguns políticos e meios de comunicação.

A questão é também colocada em França, onde, no dia seguinte à primeira volta das eleições departamentais do dia 22 março, o Frente nacional (FN) de Marine Le Pen apareceu uma vez mais, depois do seu avanço nas eleições europeias de maio de 2014, como incontornável, ao lado dos sempiternos União para um movimento popular (UMP) e o Partido socialista (PS), onde a alternância sem alternativas parece ter acabado.

O Le Monde aponta também para um novo fenómeno: “o avanço do partido de extrema-direita em zonas que, até à data, permaneciam impermeáveis ao seu discurso” e os vários ‘triângulos’ nos ‘cantões’ (circunscrições) onde o FN chegou à segunda volta.

“O que fica totalmente do avesso com este tripartidismo é na verdade a regra elementar do jogo político e eleitoral dos últimos 50 anos”, afirma o jornalista do diário parisiense Gérard Courtois, que prevê a eliminação do candidato de um dos grandes partidos tradicionais “na primeira volta” das próximas eleições presidenciais, em 2017.

O fenómeno também ocorre noutros países europeus e faz parte de uma tendência comum em vários sistemas democráticos europeus, observa por fim o Diario.es, segundo qual

na Áustria, na Alemanha, na Suécia e no Reino Unido, as duas principais forças políticas perdem votos há várias décadas.