“O regresso de Durão Barroso! “, ironiza o Mediapart. “A Comissão Europeia deu sinal de vida, quarta-feira, em Estrasburgo. O desaparecimento de Durão Barroso foi notícia que correu durante meses num ambiente de turbulência financeira sem precedentes na zona euro.

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“Para provar aos céticos que está mais vivo do que nunca, Durão Barroso utilizou duas propostas emblemáticas com vista a acalmar os mercados financeiros: desde logo, uma taxa sobre as transações financeiras à escala europeia. Depois, euro-obrigações para a zona euro.” Mas o site parisiense mostra-se cético, visto que “a única proposta que o mesmo Durão Barroso pôs em cima da mesa, o ano passado, pela mesma ocasião (luz verde para um endividamento europeu destinado a financiar determinados projetos de investimento) nunca se concretizou”. “Se o português se esforça para se impor nas questões de regulação financeira, no ponto máximo da crise, é porque passou uma boa parte do seu primeiro mandato (2004-2009) a desemaranhar a pouca regulação ainda oficial sobre os mercados. (...) Como é possível que, hoje, possa afirmar que tem meios para os mercados retomarem o seu lugar? – Mediapart

Para o Público, em Lisboa, o discurso de Durão Barroso teve “um propósito político central: rejeitar a proposta franco-alemã para um governo económico da zona euro, apresentada pela chanceler Angela Merkel e pelo presidente Nicolas Sarkozy no seu encontro de 16 de Agosto passado”.

“Ontem, Barroso respondeu-lhes que o ‘governo económico’ só pode ser a Comissão. Fê-lo perante a única instituição europeia com que pode contar para esse fim — o Parlamento Europeu. Fica do seu discurso um certo sabor a admissão de fraqueza. A Comissão, a que preside, quase desapareceu em combate na voragem da crise europeia. Foi sistematicamente marginalizada pela vontade da dupla franco-alemã. Assistiu impotente à transferência do poder para Berlim. E se houve um protagonista no combate efectivo aos efeitos devastadores desta crise ele foi o Banco Central Europeu. Dir-se-á que esta é uma tendência inevitável nas novas circunstâncias da integração europeia que a crise da dívida se limitou a acelerar.” – Público

Seja como for, temos de reconhecer que a Comissão Europeia reagiu, nota o El País, que adianta, sobre a intervenção de Durão Barroso no Parlamento Europeu, ter sido

“um pequeno exemplo de realismo no marasmo de incapacidades e retóricas inúteis que, ultimamente, caracteriza a gestão da crise na zona euro”. – El País

Entre as propostas do Presidente da Comissão Europeia, o Público retém essencialmente o valor de 0,01%: o montante da “taxa Tobin” que Bruxelas “tenciona cobrar sobre as transações interbancárias a partir de 2014:

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“É um número que evidencia a timidez da iniciativa, comparado com os 4 milhões e 600 mil euros que os cidadãos europeus injetaram no sistema financeiro no início da crise. E é preciso saber se esta medida é exequível, pois a paquidérmica máquina financeira da UE exige que qualquer alteração em matéria de fiscalidade europeia seja aprovada por unanimidade pelos Estados-membros — e o governo britânico já manifestou a sua oposição a esta medida. – Público

Por muito que lhe custe, não era o Presidente da Comissão Europeia que devia ter feito o “discurso do Estado da União”, mas Angela Merkel, afirma o editorialista Marek Magierowski, no Rczespospolita:

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“não é ele que mexe os cordelinhos e não é ele que carrega o fardo de um eventual desmoronamento da zona euro […], a UE é governada pela chanceler alemã e toda a gente tem os olhos postos nela. [...] O discurso foi frequentemente interrompido por ovações dos eurodeputados e os líderes dos partidos conservadores partilharam desse entusiasmo. Toda a gente desempenhou admiravelmente o seu papel no teatro de UE. Mas a vida está lá fora.” – Rzeczpospolita

Em contrapartida, a demonstração de força do Presidente da Comissão Europeia convenceu Maroun Labaki, do Soir.

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“Durão Barroso é um político muito hábil. Um pouco de tática, uns efeitos de magia e muita convicção: o Presidente da Comissão Europeia proferiu um grande ‘discurso sobre o estado da UE’, muito político. […] Podemos dizer que, ontem, nasceu um ‘apoio’ entre a Comissão e o Parlamento Europeu. Esta aproximação será feita de facto à custa das capitais e do Conselho Europeu no seu todo. Os chefes de Estado e de Governo têm mesmo com que se preocupar...” – Le Soir