Para Le Figaro, que relembra que atacar as exportações de petróleo iraniano, equivale a ameaçar diretamente o regime da República Islâmica, cujo orçamento depende em 50% dessas receitas, o embargo europeu é “uma aposta”:

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Nada indica que a perda do mercado europeu por parte do Irão não será compensada noutro sítio. O risco de ver aumentar ainda mais o valor do petróleo é limitado: a retoma da produção de hidrocarbonetos no Iraque e na Líbia deverá amortecer o choque produzido, numa altura em que a economia mundial tem vindo a abrandar. Será isto suficiente para levar o Teerão a negociar seriamente o nuclear? Duvida-se. O regime dos mullahs ainda não chegou ao ponto de ter de escolher entre a sua sobrevivência e o seu programa militar. Deve-se agir urgentemente. Caso contrário, como conseguiremos convencer os israelitas a não intervir, tendo em conta que estão convencidos da iminente capacidade nuclear iraniana? O embargo petrolífero é sem dúvida menos eficaz do que a guerra secreta travada com atos de sabotagem, assassínios e vírus informáticos. Mas tem o mérito de mostrar publicamente que a Europa continua a exercer pressão sobre o Irão.

Em termos de sanções contra o Irão, a UE jogou a sua última cartada, alerta Süddeutsche Zeitung, de Munique.

É o último esforço na velha tentativa decenal de resolver o conflito de forma pacífica. Na verdade, se o Irão não ficar impressionado, só restarão os meios militares. A UE e os Estados Unidos, que apostam há anos em sanções mais severas, correm um enorme risco. Mas quem pretender impedir o Irão de avançar no fabrico da bomba atómica, não terá alternativa.

Uma posição contestada pelo antigo representante permanente do Reino Unido na Agência Internacional para a energia atómica (AIEA). No londrino The Daily Telegraph, Peter Jenkins considera que Teerão devia ser autorizado a enriquecer o urânio – mas com o máximo de precaução:

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Atualmente, o Ocidente é quase o único a insistir para que o Irão não enriqueça. A maioria dos não ocidentais prefere ver o Irão a ser tratado como as outras partes do Tratado de Não-Proliferação Nuclear [TNP]: que têm o direito de enriquecer o urânio em troca de vigilância acrescida por parte dos inspetores da AIEA. Estou mais inclinado para esta solução. De facto, penso que a crise que se desenha poderia ser evitada por um acordo segundo as seguintes modalidades: o Irão aceitaria as garantias mais elevadas da AIEA em troca da autorização para continuar a enriquecer o urânio. Além disso, o Irão deveria adotar espontaneamente medidas para mostrar que não tem a intenção de fabricar armas nucleares. Foi este o principal acordo que o Irão propôs ao Reino Unido, à França e à Alemanha em 2005. Olhando para trás, devíamos tê-lo aceitado. Não o fizemos porque o nosso objetivo era travar qualquer enriquecimento por parte do Irão. Desde então foi este o objetivo estabelecido pelo Ocidente, apesar de os iranianos repetirem vezes sem conta que não se sujeitariam a ser tratados como membros de segunda no TNP – com menos direitos do que os outros signatários – e apesar de estes estarem mais inclinados a enfrentá-los do que a ceder à pressão.

Mas provavelmente já é demasiado tarde, calcula La Vanguardia, de Barcelona: “Tanto Bruxelas como Washington deixaram de acreditar na cantiga do Teerão, segundo a qual, as suas atividades têm uma finalidade exclusivamente pacífica e civil”. Dito isto,

o impacto económico da medida é incerto: depende em grande parte da adesão de outros países, como a China, o Japão ou a Índia que, caso contrário contrário, poderiam também absorver a produção destinada à UE [20% das exportações iranianas]. No entanto, as sanções arriscam a ter um efeito bumerangue e podem acabar por afetar a economia europeia. Os especialistas aguardam um aumento do preço do petróleo […], e são precisamente os países mais afetados pela crise que mais dependem do Irão; após a Grécia, será a Espanha, o país mais afetado pelo boicote.