Um pano esconde as bebidas alcoólicas interditas no interior de um bar, em Praga, a 16 de setembro de 2012.

É tempo de beber com moderação

A proibição parcial que se seguiu à morte de 26 pessoas envenenadas por álcool adulterado deverá acabar em breve. Mas num país onde as liberdades muitas vezes se estendem à negligência, talvez seja boa ideia manter algumas das limitações, defende um colunista.

Publicado em 26 de Setembro, 2012
Um pano esconde as bebidas alcoólicas interditas no interior de um bar, em Praga, a 16 de setembro de 2012.

Este país, apesar de todos os esforços dos eurocratas de Bruxelas e dos seus colaboradores nacionais, continua a ser uma ilha quase solitária da verdadeira liberdade num mundo que, com as suas várias proibições e – desculpem a expressão – regulamentos diretos, está a correr para a escravidão.

Podemos, portanto, esperar que uns quantos Hegers [Leoš Heger - ministro checo da Saúde] e outros tipos semelhantes tentem explorar a crise que atualmente atinge o mercado das bebidas destiladas e restrinjam um direito fundamental pelo qual se lutou durante muito tempo em todas as praças públicas do país: acesso totalmente livre a qualquer género de bebida em qualquer lugar e a qualquer hora do dia ou da noite. Espero que o façam.

A proibição parcial, declarada pelas autoridades na noite de sexta-feira, 21 de setembro, em estado de desespero absoluto, não pode durar para sempre. O fim dessa proibição, no entanto, pode ser o momento certo para começar a falar muito a sério sobre a possibilidade de a manter em parte, porque há boas razões para isso e porque levaria o país ainda mais longe no caminho para a civilização.

Sem dúvida, vão levantar-se vozes para declarar que “a proibição não resolve nada” e tenho a certeza que ouviremos centenas de exemplos de todos os cantos do mundo mostrando como os esforços para restringir a disponibilidade de álcool destilado falharam, como foram contornados, como serviram apenas para encorajar o mercado negro…

O "paraíso liberal" escapa ao controlo

Na verdade, houve muitas alusões humorísticas no Facebook sobre o facto de Miroslav Kalousek [ministro das Finanças checo, que tem fama de gostar de beber uns copos] ser a pessoa certa para pregar sobre os perigos do fácil acesso às bebidas brancas. Talvez ele não seja a pessoa certa, de facto, mas desta vez a verdade está do seu lado. E, embora no debate seja certamente muito útil ouvir os argumentos e as experiências apresentados pelos céticos, na situação em que agora estamos, devemos sim olhar para os países onde as bebidas brancas são realmente tratadas como aquilo que na verdade são – essencialmente, uma droga muito perigosa que talvez só se distinga das drogas ilegais porque o Estado cobra grandes impostos sobre a sua venda.

Mas na República Checa, neste “paraíso liberal”, a situação está a escapar um pouco ao controlo. Não por acaso, mas antes por causa da versão checa normal de “liberdade”. Parece estar relacionado com outras peculiaridades da República Checa – por exemplo, o número de casinos, inigualável na Europa, onde cada um é livre de jogar o seu salário e os benefícios sociais, ou até mesmo a ousada resistência às "tendências da moda", que nos impedem de desfrutar de um cigarro após o almoço mesmo debaixo dos narizes dos nossos companheiros de mesa, num restaurante a abarrotar. Em vez de uma ilha de liberdade, no entanto, lembra-nos um museu rústico ao ar livre onde, naturalmente, qualquer um pode encontrar um pouco de paz; mas talvez esteja na altura de olhar à volta, para outro lado. (O autor admite que não é nem não fumador, nem abstémio.)

Banir as barracas de rua

Qualquer pessoa que queira ficar cega ou até mesmo matar-se com vodka adulterado consegue encontrá-lo, mesmo que a venda de bebidas brancas seja completamente proibida. Mas as coisas podem tornar-se-lhe mais difíceis. Afinal de contas, com uma pessoa destas há certas despesas que as suas contribuições para o Ministério das Finanças não cobrem.

E o mesmo também é verdade para os casos menos dramáticos de “alcoolismo comum”. Banir as barracas de rua que vendem bebidas brancas pode muito bem ser o primeiro e mais simples dos passos. Nessa altura, então, talvez possamos começar a discutir se a República Checa é ou não um bom sítio para se experimentar o modelo de países – que evidentemente não se consideram a si próprios Estados totalitários – onde as bebidas brancas só são vendidas em lojas especialmente licenciadas para tal e apenas em determinados horários, que decididamente não incluem as três e meia da manhã. Qualquer coisa é melhor do que a situação que temos hoje.

Isso pressupõe, naturalmente, que, para além dessa repressão oficial, o Estado seja capaz de realizar as suas outras funções, que evidentemente tem negligenciado nos últimos anos, apesar de todos os sinais de alerta, e que seja também capaz de combater o mercado negro com tanto sucesso como tem combatido as pequenas plantações domésticas de marijuana. Porque este é verdadeiramente um problema que nada tem a ver com "liberdade".

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