França e Itália jogam pingue-pongue

Enquanto refugiados vindos do Norte de África continuam a desembarcar às centenas em Lampedusa, na fronteira franco-italiana, centenas de outros tentam em vão entrar em França, o destino final do seu périplo.

Publicado em 30 Março 2011 às 15:05

"A Itália não nos interessa. Estamos de passagem. Queremos ir para França mas eles não nos querem lá." Acampamentos improvisados na estação dos caminhos de ferro, muros transformados em urinóis, sesta nos jardins municipais, mais acampamentos ao longo do rio Roya. Provavelmente clandestinos, talvez refugiados, sem dúvida pessoas numa situação desesperada. São migrantes.

Lampedusa será o gargalo da garrafa mas Ventimiglia é o fundo, onde se agita uma mistura explosiva: vidas em trânsito – que têm por única bagagem uns jeans, um par de ténis e um telemóvel – e habitantes locais inquietos, que interpelam o presidente da Câmara, Gaetano Scullino, na rua: "Quando é que os manda embora daqui?"

A estação ferroviária de Ventimiglia é a terceira etapa italiana dos migrantes que vieram da Tunísia. Primeiro, o desembarque na ilha de Lampedusa e a transferência para centros de acolhimento provisórios no continente – Bari, Foggia, Crotone – de onde é fácil fugir. Depois, o comboio para Norte, para atravessar a fronteira.

Um fax para a polícia italiana e basta

A Itália é apenas um país de passagem. O sonho é chegar a França: encontrar familiares que vieram antes, em busca de trabalho, mais fácil de encontrar na Côte d’Azur. Mas os escassos dez quilómetros que os separam de Menton parecem mais longos do que as perigosas noites de navegação no canal da Sicília.

Newsletter em português

Porque, para eles, a fronteira entre a Itália e a França é um muro intransponível. O que mais temem é a polícia de fronteiras, que, nas últimas semanas, intensificou os controlos: interceção de viaturas, com um olhar atento à cor da pele dos passageiros, e patrulhas nos comboios.

Quando descobrem um viajante sem papéis, re-enviam-no de imediato para Ventimiglia, sem se darem ao trabalho de verificar o seu estatuto ou o seu estado de saúde. Basta um fax para a polícia de fronteiras italiana. Nós voltamos a recebê-lo, sem objeções.

As autoridades italianas são o oposto: zero controlo, ninguém pede a apresentação de papéis. Os centros de acolhimento estão a abarrotar, ninguém sabe onde os colocar. Aliás, para quê detê-los, se eles não vão ficar aqui? Para já, a população local continua a ser tolerante

A pequena Lampedusa do norte

Deste modo, Ventimiglia passou a ser uma pequena Lampedusa do norte. Todos os dias, chegam aqui uns 50 migrantes vindos do sul de Itália e outros tantos tentam atravessar a fronteira francesa. São poucos os que conseguem e uns 30 acampam em Ventimiglia, antes de tentarem de novo.

E, de dia para dia, o seu número aumenta. Hoje, são mais de 100. Todos eles homens com menos de 30 anos, na maioria tunisinos (e os primeiros líbios). Trazem no bolso sanduíches e o dinheiro para o comboio.

Até agora, não houve incidentes. Os habitantes de Ventimiglia, que, em 1998, passaram pela invasão dos curdos, sofrem mas toleram. Contudo, "se isto continuar assim, a situação vai explodir" – é o que se ouve nos cafés e também nas reuniões institucionais, que passaram a ser diárias.

À noite, os migrantes acampam na passagem subterrânea da estação ferroviária, onde há uma tomada para recarregar os telemóveis. Após a intervenção do presidente da Câmara, a SNCF passou a deixar também abertas a sala de espera e as casas de banho. Durante o dia, andam às voltas pela cidade, em busca do caminho menos arriscado para a França.

Samir faz 24 anos dentro em breve. Emigrou para Itália ainda criança e, até há pouco tempo, trabalhou numa empresa de transportes. Mas a empresa fechou. Foi com uma rapariga para Nice, onde agora trabalha como carpinteiro. Mostra o seu cartão de residente, com o qual pode deslocar-se livremente na Europa.

Mostrou-se desconfiado, durante todo o dia: "Vim à procura do meu irmão. Tem 20 anos e veio de Sfax para Lampedusa, o que lhe custou 1800 euros. Depois, foi transferido para a Apúlia. Ele telefonou-me e eu disse-lhe que me encontrava com ele em Ventimiglia. E aqui estou eu. Ontem, fiz quatro viagens de ida e volta para Nice, para ver como funcionam os controlos. De carro, não é possível. Se nos mandarem parar, prendem-me”.

Os passadores estão de volta

Nos últimos dias, assistiu-se ao regresso dos passadores – que tinham desaparecido com a abolição das fronteiras. Abordam os migrantes na estação, indicam-lhes um carro e oferecem-se para os levar, mediante tarifas variáveis: 50 euros até Menton, 100 até Nice, 150 até Marselha. Três passageiros por viatura, partida ao cair da noite. A polícia já deteve dez deles.

Alguns alpinistas oferecem os seus serviços como guias para atravessar a fronteira a pé, como antes de Maastricht, escalando rochedos íngremes. Samir tem medo das armadilhas. "É melhor ir de comboio. Pelo menos, no comboio, vamos em compartimentos diferentes e não corro o risco de ser preso."

Oito e dezassete, o comboio para Grasse. Está na hora. Samir chama o irmão, coloca-se na fila da bilheteira e, depois, dá-lhe um bilhete, como se fosse um bilhete da lotaria. Abraça o irmão e cada um vai instalar-se numa carruagem, nas duas extremidades do comboio.

Chegou a noite. Os pedaços de cartão são estendidos no chão da estação. A praça está deserta e a polícia vigia discretamente. Mais alguns migrantes saem do comboio de Roma e instalam-se para passar a noite. Recebo um SMS, de Samir: "Adeus, Itália!"

É uma organização jornalística, uma empresa, uma associação ou uma fundação? Consulte os nossos serviços editoriais e de tradução por medida.

Apoie o jornalismo europeu independente.

A democracia europeia precisa de meios de comunicação social independentes. O Voxeurop precisa de si. Junte-se à nossa comunidade!

Sobre o mesmo tópico