Num gesto sem precedentes, e por iniciativa do The Guardian, “56 jornais de 45 países dão o passo inédito de falar a uma só voz através de um editorial comum". "Fazemo-lo porque a humanidade enfrenta uma terrível emergência”, explica o texto. “Os políticos em Copenhaga têm o poder de moldar a opinião da História sobre esta geração.” Mas nada é menos certo do que um acordo global sobre a redução das emissões de CO2 entre os 192 países representados. E neste caso, previne o cientista James Hansen no The Guardian, o resultado seria tão imperfeito que seria preferível recomeçar do zero. "Se terminarmos com algo parecido com Quioto, as pessoas vão passar anos a tentarem perceber o que significa". Para o director do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, o aquecimento global é como o nazismo ou a escravidão: "é o tipo de questão sobre a qual não pode haver compromissos".
Vislumbram-se dois cenários possíveis, prevê o Polityka. O cenário negro, desenvolvido pelo norte-americano Bruce Bueno de Mesquita, em [The Predictioneer's Game](http://www.amazon.com/Predictioneers-Game-Brazen-Self-Interest-Future/dp/1400067871 ), baseia-se na teoria dos jogos, temendo que os países procurem apenas o seu próprio interesse e sejam cada vez menos propensos a procurar um acordo. O outro cenário, traçado pela galardoada do Prémio Nobel da Economia, Elinor Ostrom, num relatório para o Banco Mundial, aposta em iniciativas locais e na cooperação entre cidades e regiões do mundo para combinar elevados níveis de vida, protecção do ambiente e fracas emissões de CO2.
Inventar um polícia mundial do clima
De qualquer modo, será sempre difícil de fazer aplicar qualquer acordo. Como observa o cronista sueco Martin Ådahl, na Fokus, o Protocolo de Quioto, mais vinculativo que o texto em debate em Copenhaga, "não é aplicado pelos signatários". Por exemplo, "o Canadá, que se tinha comprometido em diminuir 6% das emissões até 2012 aumentou-as em 28%”. "Quais são as sanções para os países que não respeitam os seus objectivos de redução?", interroga-se o Libération. "É necessário inventar um polícia mundial do clima", encarregado de controlar os compromissos assumidos. O problema, nota o diário francês, consiste em criar a “superestrutura” mais relevante para esta missão. "Empresas privadas? Instituições da ONU? Os anglo-saxões militam para que seja o Banco Mundial a fazê-lo. Outros querem designar o Fundo Mundial para o Ambiente".
"Podia ser criado um ICF – Internacional Carbon Fund (fundo internacional de emissões de carbono)”, responde Martin Ådahl, na Fokus. Tal instituição, baseada no modelo de Bretton Woods para a economia, teria por missão "verificar as emissões, supervisionar os mercados regionais e estabelecer um sistema de sanções, modelados segundo as regras de mercado livre da Organização Mundial do Comércio". Em qualquer caso, declara o jornalista sueco, "é necessário afastar os diplomatas e envolver os economistas. Os diplomatas reflectem apenas nas vírgulas e adjectivos, fazem muito poucos diagramas e curvas. Deixem os políticos fixar os limites e os economistas fazerem o trabalho."
Críticas sobre a noção de aquecimento climático
Às dúvidas sobre o que a cimeira de Copenhaga pode alterar, acrescenta-se uma crítica crescente sobre a própria noção de aquecimento climático. Na Holanda, o escritor Leon de Winter espraia-se longamente, no NRC Handelsblad, na denúncia do “pensamento messiânico segundo o qual a humanidade deve ser protegida contra ela própria". "Desde 1998 que a temperatura do planeta deixou de aumentar", argumenta De Winter, utilizando dados criticados pela maior parte dos cientistas. "Antes de nos comprometermos na restrição da livre circulação de pessoas e mercadorias de forma drástica, devemos dar ouvidos à sensatez da história [...] mas essa sensatez parece ameaçar pessoas e organizações [...] que têm interesse em que o Climategate seja minimizado", considera, numa referência à controvérsia sobre emails que demonstram que uma equipa de cientistas sonegou deliberadamente dados que contradizem a tese do aquecimento. Em vez de se focarem no CO2, Leon de Winter aconselha a interessarem-se por “outros gases com efeitos de estufa [...], o efeito regulador das nuvens [...], as manchas solares, as correntes oceânicas e as variações do eixo planetário. Por outras palavras: um conjunto de factores extremamente complexos, quase impossíveis de captar num modelo informático".
Uma ideia apoiada pelo céptico do clima, o dinamarquês Bjorn Lomborg. A ideia de reduzir as emissões de CO2 através da instauração de impostos sobre o carbono é como“atrelar um cavalo a uma autocaravana“, escreve o perito em Estatística no Hospodářské Noviny. Valia mais, na sua opinião, investir na investigação das energias alternativas. Os verdadeiros desafios de Copenhaga seriam então: “a) encontrar os meios para deslocar a energia das regiões onde as radiações solares são mais intensas e ventos sopram mais fortes para as regiões onde vivem mais pessoas, b) inventar um sistema de armazenamento, para que o mundo tenha energia mesmo quando o sol não brilha e o vento não sopra.”