Notícias Eleições antecipadas na Grécia
Rena Dourou e Alexis Tsipras depois de vencerem as eleições de maio de 2014.

O laboratório político do Syriza

No próximo 25 de janeiro decorrerão eleições antecipadas na Grécia. O nível de incerteza é muito elevado em Bruxelas, perante a expetativa da vitória do partido eurocético Syriza, que se opõe às políticas de austeridade. Mas a formação liderada por Alexis Tsipras já conta com alguma experiência de Governo a nível municipal e regional. Reportagem.

Publicado em 23 Janeiro 2015 às 12:41
Vasileios Katsardis  | Rena Dourou e Alexis Tsipras depois de vencerem as eleições de maio de 2014.

Quando Rena Dourou iniciou as suas funções de presidente da câmara, comparou a conquista do Governo da Ática à Tomada da Bastilha de 1789. A militante do Syriza, nova estrela da esquerda grega, discursou num local especial: um ginásio greco-romano do distrito de Drosoupolis, em Ano Liosia, no noroeste de Atenas. Ática, que contra com cerca de quatro milhões de habitantes, é a região mais povoada e influente do país: inclui Atenas, Pireu e várias ilhas.
Rena não é apenas a governadora de Ática. É amiga de Alexis Tsipras, líder do Syriza. O seu laboratório – e do Syriza – é Ática. “É muito simbólico, até há pouco tempo era um baluarte da direita ou dos socialistas”, assegura Corina Vasilopoulou, uma das assessoras do Governo de Ática e militante do Syriza. [[A Ática é mais do que apenas a Ática: é a antessala do possível primeiro Governo antiausteridade da Europa.]]
Uma sondagem divulgada depois de Antonis Samaras não obter a maioria necessária para eleger o novo presidente na primeira votação atribui ao Syriza 24,2% dos votos. O Nova Democracia (ND) obteria 21%. O Potami (5,6%), o Pasok (5,5%), o Partido Comunista (5%) e o partido de extrema-direita Amanhecer Dourado (4,5%) segui-los-iam nas intenções de voto.

Terramoto político

Nas eleições europeias, o Syriza já se tinha tornado o partido mais votado da Grécia, com 26,5% dos votos. Simultaneamente às europeias, decorreram as eleições autárquicas. O terramoto político traduziu-se numa série de Governos regionais para o Syriza e outros partidos. Além da Ática, a formação conquistou o Governo das Ilhas Jónicas, nove municípios da área metropolitana de Atenas e Larissa (a quinta maior cidade do país).
As eleições europeias também confirmaram outro fenómeno político: a ascensão do partido Potami. Fundado pela estrela mediática Stavros Theodorakis, o Potami pratica a nova política e dirige-se de forma ambígua a todos os cidadãos. Contudo, os movimentos sociais receiam o Potami: “É neoliberal, progressivo e de extrema-direita ao mesmo tempo. É o partido hipster dos boémios com dinheiro ou jovens empreendedores. Não gostam de corrupção e do nepotismo, à semelhança dos imigrantes e dos sem-abrigo”, afirma a ativista Tina V.
“A narrativa neoliberal está totalmente gasta na Grécia. Vivemos num momento de transformação”. Quem o diz é Mihail Panagiotakis, um dos responsáveis pelas estratégias digitais do Syriza. Mas, significaria a chegada do Syriza ao poder uma mudança drástica? Alexis Tsipras esforçou-se para suavizar a sua imagem perante os mercados e também perante a sociedade. “Defendemos uma negociação da dívida e a permanência no euro”, precisa Panagiotakis num tom conciliatório estudado.
Já existem gestos ou medidas nos diferentes Governos locais do Syriza que possam antecipar o rumo de um Governo nacional? “O contexto para estes novos alcaldes e chefes do Governo regional não é nada amigável. Tentam impedir privatizações massivas e as medidas neoliberais impostas pelo Governo central e a Troika, como o despedimento de 15 ou 20 por cento dos funcionários. Rena Dourou multiplicou por seis o orçamento social”, assegura Corina Vasilopoulou.
Se a Ática é um grande laboratório, [[a metáfora da mudança de pele da Grécia reflete-se no novo Governo de Chalandri, um antigo baluarte burguês.]] O seu presidente da câmara, Simos Rousos, está a bloquear o despedimento em massa dos seus funcionários, arriscando-se a ser preso por insubordinação contra as ordens do Governo. “Chalandri foi durante décadas uma área rica de Atenas. Durante a crise, viu a sua população passar para a classe média ou média-baixa. Dezenas de lojas fechadas, uma taxa de desemprego elevada e a ascensão dos populistas de direita do Amanhecer Dourado”, assegura Stelios Foteinopoulos, militante do Syriza e do coletivo Resistência com os habitantes de cidadãos de Chalandri.

Receio contra todos os partidos

O triunfo do Syriza no bairro conservador de Chalandri tornou-se possível graças ao apoio da “esquerda mais radical, os maoistas, os trotskistas, os ecologistas e os antigos sociais-democratas”. O novo “movimento” de Chalandri pretende, segundo Stellios Foteinopoulos, “apoiar a economia cooperativa e colocar as pessoas no centro da política, do planeamento urbano, da gestão dos serviços e da educação”.
Os muros de Exarchia, o bairro histórico dos anarquistas de Atenas, não contêm jargão partidário: “a maioria dos movimentos de Exarchia não confia muito no Syriza. A frente esquerdista Antarsya está a surgir desde baixo, como alternativa”, afirma Kostas Latoufis, um militante histórico dos movimentos sociais. As sondagens atribuem ao Antarsya cerca de 2% dos votos.
Nas eleições municipais, tanto o Syriza como o Antarsya recomendaram aos eleitores que votassem nos candidatos de esquerda que passaram à segunda ronda. Não foi o caso do Partido Comunista (KKE), que assumiu uma posição neutra, bem como vários outros movimentos sociais.
O Syriza aproxima-se, uma vez mais, do poder. Será desta? Votarão os comunistas ou os simpatizantes do Antarsya no Syriza perante esta oportunidade histórica? Conseguirá a frente esquerdista consolidar-se em torno do Syriza após as eleições, a partir dos laboratórios políticos locais? Será que o populismo sui generis do Potami vai crescer?
Ninguém sabe o que acontecerá nas eleições do 25 de janeiro. Há, no entanto, uma certeza: os socialistas gregos, que ao alinhar no jogo da direita e da Troika perderam quarenta pontos em poucos anos, têm pela frente um futuro eleitoral tão sombrio como o recente título de um jornal: “Cocktail Molotov nos escritórios do PASOK”.

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