Para onde vais, Budapeste?

No dia 21 de dezembro, o primeiro-ministro Viktor Orbán fez aprovar uma lei que limita a liberdade de imprensa. Porque é que ninguém na Europa fala nisto, numa altura em que a Hungria se prepara para assumir a presidência da UE?, pergunta o colunista do Gazeta Wyborcza, Jacek Pawlicki.

Publicado em 22 Dezembro 2010 às 11:48
Manifestante contra o Governo Orban em Budapeste, no início de dezembro

No inverno de 2000, a UE decretou sanções sem precedentes contra a Áustria, isolando aquele país, depois de o partido xenófobo de Jörg Haider ter sido convidado a fazer parte de um governo de coligação. Na época, eu era correspondente em Bruxelas e lembro-me muito bem das expressões de desconforto que, então, se ouviram por toda a UE. Lembro-me da humilhação dos austríacos e do próprio Haider, que se deslocou a Bruxelas para provar que não era um Hitler em ponto pequeno.

Em janeiro de 2011, a Hungria, com Viktor Orbán a orientá-la claramente para uma via autoritária, assume o leme da presidência rotativa da UE. Numa posição de força que lhe é conferida pela maioria parlamentar de três quartos e pela desorganização reinante entre a oposição, o primeiro-ministro húngaro acaba de fazer aprovar uma nova lei de informação que lhe permite reprimir e acossar financeiramente os órgãos de informação independentes, evocando qualquer pretexto que lhe ocorra por intermédio de um conselho para a comunicação social controlado pelo Governo.

O Executivo de Orbán já assumiu o controlo da maior parte das instituições públicas da Hungria. Além disso, também perturbou Bratislava ao oferecer passaportes húngaros à minoria húngara na Eslováquia.

Nem um comentário crítico da parte dos líderes da UE

Orbán é um político muito mais talentoso e experiente do que o falecido Haider. Dotado de um espírito combativo notável, começou a carreira no movimento da oposição democrática e regressa agora ao poder, depois de ter perdido duas eleições gerais. Infelizmente, a sua mistura de populismo, messianismo panoniano e nacionalismo do século XIX pode ser mais perigosa do que o haiderismo.

Ainda assim, não há reações na Europa. Tirando os órgãos de informação, nenhum dirigente da UE emitiu qualquer comentário crítico sobre Orbán. Deprimida pelos problemas do euro, a Europa tornou-se insensível. Não quero dizer que devesse impor sanções à Hungria, porque aquilo que os dirigentes da UE fizeram à Áustria, há 10 anos, foi terrível. Mas, pelo menos, alguém poderia dizer a Orbán: "Estás a ir pelo mau caminho, Viktor! Porque estás a destruir a democracia, quando tens tanto apoio popular e vais ter de enfrentar grandes desafios?".

O populismo é hoje a doença pan-europeia – desde os Balcãs, passando pela Itália e chegando a França. Todos os dirigentes estão ocupados com os seus próprios problemas e nem sequer olham para aquilo que se passa mesmo diante dos seus narizes. A Europa está não apenas a perder a sua sensibilidade e autoconfiança mas também a sua capacidade de se defender. Isto apesar de partilharmos não apenas o mercado comum, o orçamento, o euro e Schengen mas também os princípios democráticos. Será que queremos desistir deles?

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