A saída da crise não passa de uma ilusão

Após um período de trégua relativa e de otimismo, os mercados parecem querer, mais uma vez, penalizar os países mais frágeis da zona euro e as tensões sociais reacendem-se. Aqueles que pensavam que modestas alterações de política iam resolver uma crise estrutural enganaram-se redondamente, explica um economista.

Publicado em 27 Setembro 2012 às 14:59

A chegada do outono, em 23 de setembro, assinalou o fim do verão não só para o comum dos mortais, mas também para os mercados financeiros. De Tóquio a Nova Iorque, passando pela Europa, as cotações das bolsas estão em nítido refluxo em quase todo o lado.

Que se passa? Os mercados internacionais estão a pagar o preço do fim de três ilusões que os acompanharam durante o verão. A primeira, bastante infantil mas, ainda assim, muito difundida, poderia chamar-se “a ilusão da varinha de condão”. Trata-se de uma deformação mental que leva a pensar que os governos e os bancos centrais são capazes de, no espaço de algumas semanas ou de alguns meses, inverter tendências negativas enraizadas desde há anos. Para tal, bastaria uma pequena disposição regulamentar e tudo ficaria como dantes; o jardim das delícias (financeiras) voltaria a produzir os seus maravilhosos frutos.

Na realidade, a crise que vivemos há cinco anos é um fenómeno bem mais grave e os seus bacilos estão por todo o lado ou quase, na economia e na sociedade, e não apenas nas cotações das bolsas. E serão precisos anos para os erradicar, na medida em que isso seja possível. As medidas de estabilização representam um caminho semeado de escolhos. Os agentes dos mercados financeiros que não quiserem acreditar em tal correm o risco de pagar por isso.

Muita paciência e alguns sacrifícios

A segunda ilusão dos mercados relaciona-se com a primeira e pretende que, com varinha de condão ou sem ela, o remédio que poderia relançar a economia real já foi encontrado – e teria repercussões imediatas e positivas sobre as bolsas. Na realidade, os remédios propostos são dois e, para já, nenhum deles representa a solução: o primeiro é a injeção massiva de liquidez, solução adotada pelos Estados Unidos, que, melhor ou pior, permite manter à tona a economia norte-americana; o segundo é uma mistura europeia de austeridade orçamental (hoje) e medidas de relançamento da produção, com as contas públicas saneadas (amanhã) – uma solução que, por definição, requer muito tempo, muita paciência e alguns sacrifícios. Desde que, evidentemente, os resultados se façam sentir depois.

Estarão os europeus realmente dispostos a aceitar esses sacrifícios e a dar mostras da paciência necessária? Na realidade, essa pergunta obtém respostas no mínimo hesitantes. E isso leva-nos à terceira ilusão: aquela que pretende que os governos sejam capazes de tomar quaisquer medidas, tendo em conta exclusivamente a viabilidade económica e abstraindo-se da viabilidade política, ou melhor, da reação da população.

O melhor exemplo é naturalmente o da Grécia, onde se insiste na necessidade deste ou daquele novo corte orçamental, sem se conseguir superar o “buraco” das finanças públicas. Acontece que cada novo apertar do cinto faz aumentar o descontentamento – como demonstram as manifestações violentas de 26 de setembro – e engrossar as fileiras daqueles que se sentem seduzidos pela ideia de mandar tudo para o inferno e abandonar a moeda única. O que, sem dúvida, não faria nenhum bem ao euro e menos ainda aos gregos, que, dado o estado da sua balança de pagamentos, não estariam de modo algum em condições de pagar o trigo e o petróleo que lhes permitirão aguentar o inverno.

Problema da viabilidade política

Apesar de o quadro ser menos sombrio, em Espanha, a margem de manobra não deixa de ser muito estreita. A Itália parece ter uma rédea mais larga, se acreditarmos nas declarações de personalidades conhecidas pela sua severidade, como o presidente do Bundesbank, sobre as capacidades do país para sair da crise sem ajuda estrangeira. A Itália é um dos raros países onde a maior parte das famílias dispõe de uma poupança consequente e onde a queda do consumo parece associada não apenas à redução dos rendimentos de alguns setores da população especialmente atingidos pela crise mas, também, ao medo generalizado face ao futuro.

O problema da viabilidade política não se coloca unicamente nos países indiscutivelmente fracos. É o que indicam, em França, as informações quase simultâneas que dão conta da ultrapassagem da barra dos três milhões de desempregados e da queda da quota de popularidade do Presidente François Hollande, que perdeu 11 pontos num mês. Testemunham igualmente o facto os indícios, hoje muito claros, de um abrandamento da economia alemã e de uma situação que está longe de ser famosa nas fileiras da coligação no poder em Berlim. Pode dizer-se que, por mais sólido que aparentemente seja, não há país europeu que não se preocupe com o futuro da sua economia.

É por tudo isto que as bolsas derrapam ou se mostram extremamente prudentes. Afinal, ainda que os agentes dos mercados financeiros acreditem frequentemente viver noutro planeta, as bolsas são também a expressão dessa sociedade, com os seus receios e as suas inseguranças. O mundo não se limita às cotações das bolsas e inclui também listas de compras, cada vez mais uma fonte de sofrimento, de donas de casa. E é uma ilusão acreditar que, a médio ou a longo prazo, as bolsas poderão recuperar, se as donas de casa estiverem mal.

Análise

A injustiça aumenta a raiva

Para o Süddeutsche Zeitung, são as injustiças atualmente sentidas que estão na origem da “raiva dos cidadãos” expressa na Grécia, em Portugal e em Espanha:

Os governos estão em estado de alerta: a tendência para extremismos políticos aumenta a cada nova manifestação. Podemos estar na época dos demagogos.

São dois os fatores que explicam que a raiva se exprima através dos partidos extremistas na Grécia, através dos independentistas em Espanha e por um possível regresso de Silvio Berlusconi em Itália:

A capacidade de sofrimento de uma sociedade não pode ser apenas determinada pelo preço do pão ou pelo montante do subsídio de desemprego. Depende também da força da convicção e do otimismo que um governo consegue desenvolver. Em Espanha e na Grécia há uma cruel ausência de liderança. Pelo contrário, há um sentimento crescente de se estar a ser tratado injustamente porque os ricos estão a ser preservados e os bancos continuam intocáveis.

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