Berlusconi, ícone nacional, cliché internacional

A imprensa europeia e internacional olha para Itália e para o seu controverso primeiro-ministro com um misto de curiosidade, condescendência e surpresa que os italianos têm dificuldade em aceitar. Quer sintam mais afinidades com Il Cavaliere, ou lhe sejam mais hostis, no fundo sentem que não são verdadeiramente compreendidos no estrangeiro.

Publicado em 16 Outubro 2009 às 07:22

Quem leu, nestas últimas semanas, os principais jornais estrangeiros, fica com a ideia de que não compreendem com objectividade e, nessa medida, não contam com exactidão o que se passa em Itália. Frequentemente, abordam os assuntos do país com um misto de folclore e superficialidade, um sentimento velado de superioridade e análise grosseira, moralismo e distracção, e substituem o antigo desprezo por les Italiens/the Italians/los Italianos ostentando uma desenvoltura aristocrática. Quase nunca dizem que Berlusconi está à frente do Governo, provavelmente por causa de um conflito de interesses e do enorme poder mediático de Il Cavaliere, mas também, e principalmente, porque o primeiro-ministro garante e representa os interesses concretos e reais dos diversos estratos da sociedade italiana, sem esquecer a inexistência de uma alternativa política capaz de apresentar uma ideia diferente, e mais convincente, de Itália.

Esta conjuntura favorece a união entre o anti-italianismo dos comentadores estrangeiros e o elitismo de uma parte da intelligentsia italiana que ama o seu país e o renega porque gostaria que fosse diferente do que é. Estes últimos só gostam dos italianos quando são pouco numerosos, representantes de uma minoria seleccionada, efusiva e esclarecida, que se movimenta ao ritmo da célebre cançãodo humorista Giorgio Gaber: "Não me sinto italiano, mas felizmente ou infelizmente, é o que sou", dividida entre um oportunismo nostálgico e um qualquercoisismo cultivado (Nome inspirado no partido Uomo qualunque ("cidadão comum"), movimento do pujadismo italiano do pós-guerra.

"Quem é contra mim é anti-italiano"

Ninguém sabe se Berlusconi já entrou em declínio. Porém, se for esse o caso, iremos assistir a um processo lento e penoso, como testemunha o silogismo populista do próprio Cavaliere: "Itália está comigo e quem não está comigo é anti-italiano; quem diz mal de Berlusconi, diz mal de Itália." Ou então: "*Os jornais estrangeiros ridicularizam Itália, mas a democracia, a riqueza produtiva do país e o Primeiro-ministro são um todo:*é pegar ou largar."

Vendo bem as coisas, é um sentimento anti-italiano profundo – factor cultural de longa data – que alimenta o anti-berlusconismo da imprensa estrangeira. O Primeiro-ministro, com as suas atitudes, tudo faz para não o desmentir e os comentadores estrangeiros só lhe agradecem: uma tourada, um duelo de florete, ou a caça à raposa, consoante o gosto nacional. A Itália continua a ser a presa. Não deixa de ser curioso, mas há outro elemento em jogo: o sentimento de inveja em relação a um país que, apesar de tudo, consegue funcionar.

A Itália faz ciumentos

Se analisarmos os últimos cinquenta anos da História europeia, verificamos a ocorrência de coisas simples e inexplicáveis: Itália é a sétima potência económica mundial, apesar de ter perdido uma guerra e vivido vinte anos em ditadura. Neste mesmo período de tempo, França e Inglaterra assistiram ao desmantelamento dos seus impérios milenares, dos seus sonhos de glória e das fantasias que alimentavam a sua política mundial, sem falar de Espanha, que perdeu um império há três séculos e que parece ainda não ter tomado noção disso, apesar da crise imobiliária.

Há algo que escapa aos observadores estrangeiros: aquilo que separa a Itália de Berlusconi, que dá azo a um golpe de Estado mediático-judicial e os seus opositores que contestam o regime autoritário, a maioria do país, indignados ao ver que o país é motivo de chacota da opinião pública internacional mas, ao mesmo tempo, cépticos quanto aos argumentos apresentados pelo Governo. O anti-italianismo não data de ontem, pois a crise do Estado-nação não foi acompanhada por um abrandamento dos estereótipos étnicos veiculados durante séculos e que fazem com que sejamos vistos como se fôssemos cães de louça. Há um mapa político europeu e também mental, psicológico e antropológico, cujos limites, invisíveis, mas bem definidos, foram traçados por lugares-comuns e velhas rivalidades nunca apaziguadas.

Visto de Fora

Para a imprensa estrangeira, Berlusconi deixou de ter condições para governar

Os escândalos sexuais que embelezaram o Verão, os recentes dissabores judiciais – após a anulação da imunidade parlamentar, decretada pelo Tribunal Constitucional, Berlusconi poderá ser julgado por crimes de corrupção – e a pressão exercida por Silvio Berlusconi sobre os meios de comunicação social, para os silenciar, levaram inúmeras manchetes estrangeiras a reclamar o seu afastamento. A má reputação do primeiro-ministro italiano no estrangeiro, já afectada pelas suas gafes e piadas de mau gosto, abate-se sobre a credibilidade do país e das suas atitudes. A última foi a Newsweek. Depois de evocar "Nero, os Borgia, pão e circo, o deboche e a corrupção", a revista semanal nova iorquina afirma que, para Berlusconi, "está na altura de sair", pois "a Itália não pode continuar a permitir-se as extravagâncias do seu playboy-chefe".

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