Como verdadeiros austríacos, não nos devemos queixar por o nosso país estar a conhecer em breve uns milésimos de segundo de “celebridade”, e que esta, pelo menos uma vez, não fique a dever-se a um qualquer maluco que encarcera os filhos em caves, ou a políticos um tudo-nada à direita.
Apesar de tudo, temos de admitir que o novo filme do humorista britânico, Sacha Baron Cohen, que ainda não chegou às salas de cinema, já dá que falar na Áustria. Não por Cohen, em Brüno, troçar dos austríacos, em particular, e dos homossexuais, em geral, mas porque o aparelho de marketing do cineasta britânico se tornou tão implacável quanto desagradável. Em meados Março, por ocasião da Semana da Moda, em Milão, invadiu a passerelle, facto que lhe valeu ser preso (Um escândalo! Mas não para ele). Há apenas duas semanas, pôs em cena o seu próprio “escândalo”, na realidade, um golpe montado, como teremos ocasião de ver. Disfarçado de “Bruno”, com umas asas de anjo e uma tanga, desceu suspenso por um gancho e aterrou de rabo na cara do rapper Eminem, homófobo convicto. Este não achou piada, já o tínhamos dito. Mas o rapper estava ao corrente, o incidente há muito que tinha sido preparado.
Para a capa da última edição da revista GQ, para homens, Cohen-Bruno posa nu, na altura ideal. Esta semana, iniciou uma tournée europeia por ocasião da estreia do seu filme. Em Paris, apareceu, como no cartaz do filme, com uns lederhosen [traje tradicional da Baviera] curtos, em pele dourada, camisa de manga cava aos quadradinhos e um chapéu tirolês amarelo. Dois dias mais tarde, em Londres, optou por um clássico britânico e apresentou-se disfarçado, em interpretação livre, de guarda do Palácio de Buckingham. Uma pantomima própria do Carnaval.
Mas Sacha Baron Cohen pode dar-se a esse luxo. Aos 37 anos, este britânico de origem israelo-iraniana, que, em privado, anda sobretudo de jeans e t-shirts largas, é agora célebre e até mesmo apreciado. Tudo começou com o rapper sexista inglês, Ali G, cujas facetas serviram para Cohen animar um programa na MTV, antes de fazer a personagem do filme. Mais tarde, em 2006, o repórter televisivo cazaque, Borat (tão misógino quanto homófobo), e o seu grande bigode chegaram às salas de cinema. E agora, chegou a vez de Bruno.
Podemos sempre tentar encontrar um qualquer modelo austríaco para a personagem, mas esta atitude meticulosa e pequeno-burguesa é vã. Um jornal britânico avança em primeira mão que a estrela austríaca, Alfons Haider, lhe serviu de modelo. Dominic Heinzl, do canal privado ATV, crê ter descoberto o verdadeiro Bruno na pessoa do responsável pelo programa de moda quotidiana. Seja como for, Cohen garantiu repetidas vezes não ter qualquer modelo em mente. Pelo contrário, é evidente que a ideia da personagem vem realmente da Áustria. Cohen viveu e estudou uns tempos em Viena. Não podia vir mais a calhar. De qualquer maneira, o famoso Bruno partiu para os Estados Unidos, onde se tornou “o austríaco mais célebre depois de Hitler”. Descreve a república alpina como sendo um país onde os homens não estão autorizados a andar de mão dada. Bruno não está pois preparado para ser um embaixador austríaco particularmente brilhante. Desde que faça rir alguns, não há mal nenhum nisso.
Opinião não partilhada por algumas associações homossexuais americanas. Um tratamento satírico da homofobia americana seria desastroso. O público, ao qual o filme pretende dirigir os preconceitos a brincar, ficaria, pelo contrário, reconfortado com as suas opiniões.
Na Áustria, em termos oficiais, as críticas marcaram presença pela sua ausência. Mesmo assim, os fãs locais de Cohen não têm razões para se alegrar. Sendo um filme sobre a Áustria, não haverá uma estreia oficial com o actor em Viena. Para a engrenagem das relações públicas de Cohen, a Áustria, aparentemente, não passa de “um país demasiado pequeno ”.