Democracia renasce na Grécia

Enquanto o primeiro-ministro grego, Georges Papandreou, tenta impor um segundo pacote de duras medidas de austeridade, a Praça Syntagma, na capital, tornou-se um modelo de democracia direta, escreve um colunista grego. Atenienses de todas as ideologias, idades e profissões acorrem ali para manifestar a sua indignação.

Publicado em 16 Junho 2011 às 14:11
 | Manifestantes a protestarem em frente ao Parlamento grego, 12 de junho de 2011.

Quando, no seu livro “Indignai-vos”, escreveu que a indignação deveria transformar-se numa “insurreição pacífica”, Stéphane Hessel talvez não esperasse que o movimento dos indignados em Espanha e dos aganaktismenoi na Grécia seguissem o seu conselho tão à letra, tão depressa e de uma forma tão espetacular.

A resistência grega às catastróficas medidas económicas era de esperar. Ao longo da história moderna, os gregos resistiram, com determinação e sacrifício, à ocupação estrangeira e à ditadura interna. As medidas impostas pelo FMI, pela UE e pelo Banco Central Europeu, com o pleno acordo, para não dizer a convite, do Governo grego, estiveram na origem de 11 greves gerais nacionais de um dia, de numerosas greves regionais e de atos de resistência imaginativos. Os órgãos de comunicação nacionais e estrangeiros noticiaram avidamente os confrontos entre jovens e a polícia antimotim, que se seguiram às principais manifestações e deixaram uma espessa nuvem de gás lacrimogéneo a pairar sobre Atenas. Liderados por partidos de esquerda e por alguns sindicatos, estes protestos relegaram para segundo plano as manifestações contra as medidas de austeridade realizadas no resto da Europa. Mas a persistente campanha de atemorização levada a cabo pelos órgãos de informação afetos à ordem estabelecida, por alguns peritos e por intelectuais de elite semeou o medo e a culpa entre a maioria da população e conseguiu rapidamente limitar a resistência.

Há três semanas, as coisas mudaram. Uma multidão heterogénea de homens e mulheres indignados, de todas as ideologias, idades e profissões, e que inclui muitos desempregados, começou a ocupar a Syntagma – a praça central de Atenas em frente ao Parlamento; a área em volta da Torre Branca, em Tessalónica; e espaços públicos noutras das principais cidades. As ocupações e concentrações diárias, nas quais participaram, em alguns casos, mais de 100 000 pessoas, têm sido pacíficas e a polícia limita-se a observar à distância. Designando-se a si mesmos por “indignados”, os manifestantes criticaram duramente o injusto empobrecimento dos trabalhadores gregos, a perda de soberania que transformou o país num feudo neocolonial dos banqueiros, e a destruição da democracia. A reivindicação comum é o afastamento das elites políticas corruptas que governam o país há cerca de 30 anos e que o levaram à beira do colapso. Os partidos políticos e respetivas bandeiras não são bem-vindos.

Milhares de pessoas reúnem-se diariamente na Praça Syntagma, para discutir os próximos passos. As semelhanças com a Ágora de Atenas clássica, que se reunia a algumas centenas de metros de distância, são notáveis. É atribuído um número a cada candidato a orador e, quando esse número é escolhido, a pessoa é chamada ao pódio – uma recordatória de que muitos dos detentores de cargos na Atenas da antiguidade eram escolhidos por um processo idêntico. Os oradores respeitam o tempo estabelecido de dois minutos, para permitir a participação do maior número possível dos presentes. A reunião é conduzida de forma eficiente, sem as interrupções habituais nas intervenções em público. Os assuntos vão das questões organizativas aos novos tipos de resistência e solidariedade internacional, e às alternativas a medidas terrivelmente injustas. Todos os assuntos podem ser propostos e discutidos. Economistas, advogados e filósofos políticos convidados apresentam formas alternativas de fazer face à crise, em debates semanais bem organizados.

É a democracia em ação. Um desempregado e um professor universitário dispõem do mesmo tempo para expor os seus pontos de vista, que são discutidos com igual vigor e submetidos a votação para aprovação. Os indignados conquistaram a praça às atividades comerciais e transformaram-na num verdadeiro espaço de interação pública. O período da noite habitualmente passado a ver televisão passou a ser um período para estar com outras pessoas e para discutir o bem comum. Se a democracia é o poder do “demos”, ou seja, o poder daqueles que não têm qualquer qualificação especial, seja de riqueza, de poder ou de conhecimento, para governar, isto é o que, na história europeia recente, mais se aproxima de uma prática democrática.

Política para todos

Os debates extremamente lúcidos da praça Syntagma desacreditaram a máxima banal segundo a qual a maior parte das questões de política pública são demasiado técnicas para o cidadão comum e devem ser deixadas para os especialistas. A perceção de que o demos tem mais bom sem coletivo do que qualquer líder, uma crença estabelecida na ágora clássica, está agora a regressar a Atenas. Os indignados mostraram que a democracia parlamentar deve sem complementada com a sua versão mais direta. É uma recordatória oportuna, numa altura em que a confiança na representação política se encontra sob pressão em toda a Europa.

Até agora, a resposta do Governo do PASOK tem sido embaraçosamente contida. Os defensores da ordem estabelecida atribuem à esquerda dividida a culpa pelos protestos e pela violência limitada que acompanhou alguns deles. Essa tática não é válida para os indignados, que vêm de todos os lados e de parte nenhuma. Foi decidido lançar uma campanha firme, destinada a impedir o Parlamento de aprovar as novas medidas, que o primeiro-ministro Georges Papandreou acordou com os banqueiros e com a Chanceler alemã, Angela Merkel, e que reforçariam e prolongariam a recessão atual e o crescimento do desemprego pelo menos até 2015 – uma cura muito pior do que a doença. A reação a estas medidas será o ponto alto do confronto entre “iniciados” e indignados, que está a entrar na etapa final. Hoje, os ocupantes da Syntagma unem forças com os sindicatos, numa greve geral e no cerco ao Parlamento.

A [praça] Syntagma está agora mais próxima da Praça Tahir, no Cairo, do que da Puerta del Sol, em Madrid. A experiência de estar ali diariamente e de confrontar o Parlamento mudou para sempre a política na Grécia e fez com que as elites se preocupassem pela primeira vez. Em grego, a palavra stasis significa posição vertical e, também, revolta ou insurreição. A praça foi buscar o nome às manifestações do século XIX, que exigiam ao rei uma constituição (syntagma). É isso que os indignados reiteram hoje: estão de pé, exigindo um novo acordo político que os liberte do domínio neoliberal e da corrupção dos políticos.

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