Berlim, bairro da sede do governo, Agosto de 2009. Sobre a relva do Reichstag, filhos de imigrantes jogam futebol e jornalistas estiram-se nas suas espreguiçadeiras, enquanto passeantes dormitam à sombra da chancelaria. Alegoria da paz e tranquilidade, este quadro bucólico popular parece saído directamente da Renascença italiana. Um fresco, alegre e suave, como o da “Alegoria da boa governação” [1338-1340], de Ambrogio Lorenzetti, no Palazzo Pubblico de Siena.
Um ano após a declaração da crise financeira, a Alemanha continua a contar-se entre as nações mais ricas do mundo e igualmente entre as mais pacíficas, apesar da guerra no Afeganistão. Os bancos retomaram os lucros. É verdade que o número de pobres aumentou, mas tudo é relativo.
Actualmente, trata-se de votar. De acordo com uma sondagem, apenas 36% dos alemães consideram que a sua democracia funciona “bem no seu conjunto”. Nunca, na história do nosso país, este número tinha sido tão baixo. E isto quando a classe política se desunha, dia após dia, perante as câmaras de televisão, para se fazer respeitar e amar pelos eleitores.
Ser popular conta tanto que os políticos preferem não se comprometer com nada. Acabaram as tiradas do tipo “antes a Liberdade que o socialismo" dos democratas-cristãos, os quais defendem hoje o maior plano de subsídios da história alemã desde Willy Brandt [chanceler social-democrata entre 1969 e 1974]. Acabaram as piadas sobre um SPD que já ninguém acredita estar realmente empenhado na via do socialismo. Cartazes sem conteúdo. Um país sem carácter. Como acusar Angela Merkel por não ter uma linha política clara? O eleitor também não tem!
Soberano, o povo não procura uma nova visão, quer apenas um bom serviço de cotações que garanta as suas perspectivas de futuro. Os partidos políticos desempenham apenas papéis secundários.
Quando o Estado incentiva os cidadãos a não contarem com ele para assegurarem a velhice, a não se entregarem apenas às pensões "públicas" e a enviarem os filhos para escolas privadas, os cidadãos deixam de ter confiança nele. Só os desfavorecidos dependem ainda do Estado, porque não têm escolha.
A privatização das certezas sobre o futuro é um fenómeno ainda subestimado, que alimenta o descontentamento dos eleitores e leva a acreditar que não têm necessidade do Estado. A falta de solidariedade é consequência de uma boa governação. A sociedade de mercado não pode criar qualquer sentido de pertença, apenas afloramentos morais que não são pertença de um meio. Não somos cidadãos, mas banqueiros dos nossos assuntos particulares.
Deste ponto de vista, não vemos a irresponsabilidade dos banqueiros e o seu papel na crise financeira como um cancro que corrói a nossa sociedade. Quantas pessoas, na Alemanha ou noutros países, se teriam mostrado igualmente gananciosas? Os cidadãos que manipulam cada ínfimo cêntimo da sua declaração de impostos, aldrabam as companhias telefónicas e vão encher os depósitos do outro lado da fronteira sentem (talvez) um pouco de vergonha de apontar o dedo aos excesso dos responsáveis directos desta crise financeira. É também por isso que o Die Linke [o partido com assento no Bundestag mais comprometido com a esquerda] quase não beneficia com a profunda imoralidade da crise financeira.
CIDADANIA
Como fazer para reduzir a abstenção
"Besta", "idiota", "vai para a Coreia do Norte" – os eleitores alemães reagiram de forma explosiva à proposta de um deputado para introdução do voto obrigatório. Com uma abstenção recorde de 22,3% nas legislativas de 2005 e de 57% nas últimas eleições europeias, esta ideia é compreensível, observa o Süddeutsche Zeitung. O abstencionismo atingiu a nova geração e, sobretudo, uma nova camada social. Livres do "quem não vota, vota a favor de Hitler" do pós-guerra, os mais jovens, apoiados por um grande número de intelectuais, assumem a sua recusa de ida às urnas e procuram dar um sinal forte à elite política: "Estão fartos dos partidos. Querem políticos independentes e fortes, que não se deixem corromper pelos grupos de pressão", lê-se no diário de Munique. Para remediar a situação, brotam propostas: tornar os não-eleitores visíveis no Parlamento, deixando vazios os lugares correspondentes à abstenção; financiar os partidos em função da participação. Mas está difícil fazer passar a mensagem. Talvez, avança o SZ, porque não se estabelece uma relação entre participação e legitimidade política.