Poderá o efeito Grillo propagar-se?

Crise económica, exclusão dos jovens, descrédito dos partidos políticos: a situação que favoreceu o sucesso do Movimento 5 Estrelas na Itália poderá produzir os mesmos efeitos noutros países do Sul da Europa, alerta o sociólogo Enrique Gil Calvo.

Publicado em 5 Março 2013 às 14:31

A vitória da lista de Pepito Grillo (o nome por que, em Espanha, sempre foi conhecido o Grilo Falante, uma das personagens do Pinóquio, de Collodi) nas recentes eleições italianas, voltou a trazer à colação o ressurgir do populismo como efeito das contradições entre capitalismo e democracia, que abriram uma crise política como consequência da especulação financeira.

Já vimos esta sequência na Grécia, quando o sistema de partidos se desmoronou perante a pressão dos mercados, com benefício eleitoral dos populismos antissistema de sinal oposto (o Aurora Dourada, de extrema-direita e o SYRIZA, da esquerda radical), depois de um período de exceção sob um Governo tecnocrata de estrita obediência financeira.

Por isso, há uma pergunta que surge imediatamente: nas próximas eleições, ou seja, em 2015 ou até mesmo antes se o atual partido no poder for derrubado, poderá acontecer, em Espanha, algo semelhante? De facto, há sinais de que o nosso atual sistema democrático atravessa uma profunda crise política, muito agravada pelos gravíssimos efeitos sociais do injusto ajustamento económico.

Gillo não é um flautista de Hamelin

A Catalunha está, de facto, a tornar-se independente ao mesmo tempo que o seu partido maioritário se desmorona eleitoralmente [o Convergencia i Unió – CiU, de centro-direita]. O partido socialista ameaça, igualmente, dividir-se, enquanto a sua liderança se mostra incapaz de reorganizar-se, de fazer oposição com alguma solvência e de recuperar o mínimo de credibilidade eleitoral.

O desacreditado partido no poder treme perante a desconfiança e a impotência, perante a incapacidade da sua liderança para prestar contas dos múltiplos casos de corrupção que o cercam. E, entretanto, a sociedade civil volta as costas tanto à elite institucional como à classe política, como revelam as enormes manifestações da classe média. Por tudo isto, não seria nada estranho que nos próximo comícios se impusesse uma candidatura populista, ao estilo do Movimento 5 Estrelas (M5S).

De facto, e como cada vez mais observadores advertem, o fenómeno Beppe Grillo não deve ser interpretado como se se tratasse de um simples flautista de Hamelin capaz de encantar os meninos mais incautos, mas antes o contrário: uma figura de proa escolhida por um movimento social pluralista e gregário para aglutinar e embalar num único kit todas as vozes, múltiplas e heterogéneas, de oposição à classe política que estão a surgir na sociedade civil. Porque, de facto, tanto pela idade como pelo estrato social (jovens licenciados da classe média) como pelas suas ferramentas organizacionais (Internet e redes sociais) e mobilizadoras (a ocupação festiva das praças públicas), o que mais se assemelha ao italiano Movimento 5 Estrelas (herdeiro dos girotondi [movimentos de cidadãos, em Itália] de há dez anos) é o movimento espanhol dos indignados do 15-M e todas as suas sequelas: o movimento Cerca o Parlamento de 15-S (que tentou a 15 de setembro de 2012 ocupar o parlamento espanhol), o Stop Desahucios [Parem os Despejos] da PAH [Plataforma de Afetados pela Hipoteca] e as marés de cidadãos de todas as cores (branca, verde, preta, laranja, etc.).

O populismo bom e o populismo mau

E, tal como acontece com o colesterol, há que distinguir entre o populismo bom (semelhante ao capital social universalista que gera confiança positiva) e o populismo mau (capital social particularista que segrega desconfiança negativa). O populismo mau ou negativo é o de Berlusconi e outros caudilhos que tais: um padrinho mafioso que sequestra os seus seguidores para os explorar em benefício próprio. E o populismo bom ou positivo (teorizado por Ernesto Laclau) é o dos girotondi, dos indignados, do 15-M e do M5S: um movimento universalista e integrador, capaz de articular e interligar uma pluralidade de redes sociais heterogéneas para as organizar numa única mobilização coletiva disposta a levantar, em comum, a voz de toda a sociedade civil.

A diferença específica do caso italiano em relação ao espanhol é a existência de Beppe Grillo como máscara teatral: um porta-voz coletivo que atua como um ventríloquo do movimento social. Um papel que, no caso espanhol, ao que parece, ninguém soube representar.

Dir-me-ão que Beppe Grillo não passa de um palhaço (é apenas um palhaço, como enfatizou o candidato social-democrata alemão à chancelaria federal). Mas, na verdade, é um espetador que apostou no jogo da política e ganhou. Tal como os especuladores financeiros apostam no jogo dos mercados com a intenção de ganharem. Pois, se se admite que a especulação é consubstancial à lógica do mercado financeiro, por que não há de admitir-se que também o populismo especulador o seja para a lógica democrática do jogo eleitoral?

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