As carruagens-máquina dos dois comboios que chocaram em Hal perto de Bruxelas, no dia15 Fevereiro de 2010. AFPAFP

Um comboio valão e um comboio flamengo

A colisão de comboios, que provocou 18 mortos, no dia 15 de Fevereiro, nos subúrbios de Bruxelas, reaviva as diferenças entre as duas principais comunidades linguísticas do país: francófonos e flamengos. Uma reacção criticada pelo diário Le Soir.

Publicado em 16 Fevereiro 2010 às 16:36
As carruagens-máquina dos dois comboios que chocaram em Hal perto de Bruxelas, no dia15 Fevereiro de 2010. AFPAFP

É uma tragédia nacional.Um daqueles momentos em que as querelas comunitárias desaparecem para dar lugar a um sofrimento comum.O caso Dutroux, a morte do rei Balduíno, a morte de Joe Van Holsbeeck, a catástrofe de Liège ou de Ghislenghien ... : acontecimentos graves e fonte de um raro sentimento colectivo.A tragédia de Halle, esta segunda-feira, reuniu de novo a classe política em torno de uma homenagem comum.O mundo político reconhece rapidamente a dimensão do acontecimento.O primeiro-ministro Yves Leterme, consternado, interrompe a sua visita oficial aos Balcãs.Alberto II reduz as férias de Carnaval no Sul de França.O Governo federal envia três ministros.E as mensagens de condolências dos partidos políticos multiplicam-se.Mas a unanimidade não é necessariamente perfeita.

Uma única "nota dissonante", de facto, entre as reacções?Kris Peeters, ministro-presidente da região flamenga, emite um comunicado de imprensa logo a seguir ao acidente ferroviário."Mais um dia negro para a Flandres", sublinha.Não sem se congratular com a rapidez das equipas de intervenção, na missão económica que realizou na Califórnia.Em visita ao local da tragédia, Rudy Demotte, ministro-presidente valão e francófono, confessa que o seu homólogo do Norte lhe tinha telefonado "há uns minutos" evocando de novo "uma tragédia para a Flandres"."Respondi-lhe imediatamente que para a Valónia também era uma tragédia e que toda a Bélgica tinha sido afectada", adiante Demotte.Os viajantes que vinham nos comboios eram oriundos de todo o país e não se tem a certeza de que, neste primeiro dia de férias, houvesse menos gente:há muita gente que aproveita as férias para viajar ..."

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Ao explicar que toda a intervenção de resgate está a ser coordenada pelo Governo federal e que os feridos são distribuídos pelos hospitais da região de acordo com o seu vínculo linguístico, o ministro francófono não pôde deixar de sublinhar:"É simbólico!Um comboio que vinha da Flandres, outro da Valónia, e enfaixarem-se completamente, é uma tragédia que afecta toda a gente ..." Nas redes sociais, nos comentários de toda a natureza nos fóruns, a declaração de Kris Peeters suscitou reacções violentas, do tipo:"Na cabeça desse senhor, a Bélgica já não existe."Os responsáveis políticos francófonos não se envolvem em polémicas menos importantes, insistindo, nas suas declarações, na natureza belga da tragédia."Um dia negro para a Bélgica", afirma o CDH [o partido cristão-democrata valão]."Uma tragédia para todo o país", afirma o Ecolo [os ecologistas valões].Kris Peeters, por seu turno, acabou por optar por não interromper a sua missão económica na Califórnia, considerando que estava tudo sob controlo.

Um "símbolo" do nosso país, este acidente bicomunitário?A origem dos comboios e dos passageiros faz-nos pensar nisso inevitavelmente.Até mesmo o local da tragédia, um nó de comunicação próximo da fronteira linguística.A colaboração entre as equipas de intervenção e as instalações hospitalares reuniu as forças das três regiões [Flandres, Valónia e Bruxelas-Capital].E a perspectiva de uma causa "linguística" para a tragédia - reminiscência da tragédia de Pécrol, quando um sinalizador francófono não foi compreendido por um colega flamengo - não venceu.Uma tragédia belga, portanto.Mas a saída de Kris Peeters prova que o comunitário nunca está longe.

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