Alvorada Dourada atingido mas não aniquilado

As autoridades gregas desferiram um rude golpe ao prenderem os líderes e vários militantes do partido neonazi, por suspeita de assassinato. Mas isso não resolve os problemas do país, sobre os quais prosperou este partido.

Publicado em 30 Setembro 2013

Quando, finalmente, atuou contra o grupo neonazi Alvorada Dourada, o Governo de Antonis Samaras surpreendeu tudo e todos com a sua rapidez e determinação. A grande confrontação tardava em chegar e até ao assassinato do rapper antifascista Pavlos Fyssas, a 18 de setembro, por um homem que confessou ser membro do Alvorada Dourada, o grupo parecia gozar de absoluta impunidade.

Agora, no entanto, sabe-se que as autoridades vigiavam o grupo há já algum tempo e que, ao longo dos últimos meses, os seus dirigentes e membros estiveram envolvidos num crescente número de crimes.

O atraso da atuação contra o Alvorada Dourada teve um preço elevado, que inclui várias mortes em que estiveram envolvidos membros do AD e denegriu o nome da Grécia, porque a nossa sociedade parecia aceitar a intolerância e a violência. Por outro lado, quando agiram, o Governo, a polícia e as autoridades judiciais fizeram-no com rapidez e confiança. E isso demonstra coragem política, porque dentro do Nova Democracia, o partido conservador do primeiro-ministro Samaras, havia fortes argumentos a favor de uma atuação mais branda sobre a extrema-direita, com o objetivo de atrair a si os apoiantes que quisessem afastar-se daquele movimento. O confronto também faz parte do longo caminho a percorrer para restaurar a confiança nas instituições do país e no Estado.

Lei deve ser aplicada sem exceções

As apostas são altas. [[A democracia tem de provar que quando se defende daqueles que a querem prejudicar, o faz com justiça e transparência]]. O processo tem de demonstrar claramente que o que está a ser julgado são os crimes, não as ideias (por mais estranhas e de mau-gosto que pareçam à nossa sociedade, como é o caso). Tem, igualmente, de ficar muito claro que as autoridades estão a fazer bem o seu trabalho e que consigam provar os crimes, caso contrário, a ação contra o Alvorada Dourada será vista como perseguição política e trabalhará a favor do grupo logo que o choque inicial dos apoiantes passar. A lei tem de ser aplicada em todas as situações e deve ser aplicada, sem exceções. É disso que a sociedade precisa neste momento de grande incerteza.

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A prisão dos líderes do Alvorada Dourada vai desencadear grandes desenvolvimentos na política grega. Apesar do atraso, o Governo agiu com coragem e competência; assumiu as suas responsabilidades e vai ter de lidar com as consequências. Resta agora saber como vão reagir os partidos da oposição: mostrarão coragem e responsabilidade semelhantes ou farão tudo o que puderem para tirarem daqui dividendos políticos a curto prazo?

A crise da Grécia revelou muitos dos problemas que existem na nossa sociedade. A ascensão do Alvorada Dourada é um dos mais graves mas, mais importante, também tem representado uma grande distração dos problemas fundamentais que a nossa economia, a nossa administração e a nossa sociedade enfrentam.

Cumprir a lei, restaurar a credibilidade das instituições, gerar um sentimento de que há um Governo sério no comando, são passos muito valiosos em direção ao futuro. Mas isso é só o começo. A restauração da Grécia é da responsabilidade de todos, dos cidadãos aos partidos políticos. Já não há tempo para manobras de diversão.

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