A crise segundo Dimitra

Não são apenas jovens indignados que se manifestam nas ruas de Atenas: também há aqueles que, como Dimitra, tenham trabalhado uma vida inteira e vejam hoje o seu nível de vida e o seu ambiente degradar-se, como nos conta a correspondente da Foreign Policy.

Publicado em 24 Junho 2011 às 15:09
Atenas, 21 de junho.

Após um ano a lidar com a mesma multidão de anarcoesquerdistas e sindicalistas, nos infindáveis protestos antiausteridade em Atenas, conheci finalmente uma grega que bem podia ser o retrato da crise económica.

Dimitra é uma avó de 62 anos de idade, que vive no outrora elegante, hoje maltratado, bairro central de Atenas que envolve a praça da Vitória. Gere um minimercado que a alimenta, mais à filha subempregada e dois netos. Está prestes a fechar. Sempre pagou os seus impostos, mesmo com os amigos a gozarem com ela por fazê-lo, e nunca gastou mais do que conseguia economizar. Mas as medidas de austeridade elevaram os impostos e as contas dos bens essenciais, de modo que as suas economias estão-se a esgotar. E como se não bastasse, o bairro está agora cheio de consumidores de drogas e delinquentes organizados. Tem medo de sair à noite, porque já foi assaltada mais vezes do que consegue recordar. "Estou a ficar farta", diz.

Durante muitos anos, os políticos gregos não prestaram atenção a pessoas como Dimitra. Mas deviam. Esta maioria silenciosa – os gregos que cumprem as regras, pagam os seus impostos e vivem dentro das suas possibilidades – estão agora a pagar dívidas acumuladas por um sistema político corrupto, clientelar e ineficiente, que não lhes deu quase nada. O Governo não devia temer os “aganaktismenoi”, os gregos que gritam palavras de ordem, acampados há semanas na Praça Sintagma, num protesto pacífico antiausteridade que segue o modelo dos Indignados de Espanha. Deviam temer Dimitra e todos os gregos como ela, que deram pacatamente aos políticos gregos o benefício da dúvida e, após este ano de austeridade, não foram a lugar algum e finalmente perderam a paciência em relação a eles.

Internamente, a situação tem muitas camadas, incluindo uma economia estagnada quase de estilo soviético, que favorece o clientelismo em vez do mérito, a cultura da corrupção que tem desperdiçado dinheiro público, e um recente aumento da imigração ilegal que tem sido mal gerido tanto por gregos como por europeus, deixando milhares de imigrantes desempregados encalhados em Atenas, sem documentos e cada vez mais desesperados. No último ano, um preocupante aumento da criminalidade violenta reanimou os outrora insignificantes bandos neo-nazis, que alguns moradores de longa data do centro da cidade veem agora como uma força de segurança mais eficaz do que a polícia municipal ou nacional.

"As pessoas já não se sentem seguras de maneira nenhuma, e isso põe-nas tensas, irritadas, desconfiadas", diz o padre Máximo, da Aghios Panteleimonas, catedral do bairro central de Atenas com o mesmo nome, que assistiu a alguns crimes horrorosos no ano passado. "Não sei o que dizer a senhoras idosas que aparecem a chorar, magoadas, depois de um imigrante afegão ou africano as ter assaltado a caminho da igreja. Não sei o que dizer às prostitutas adolescentes africanas que aparecem aqui, implorando ajuda e um caminho para sair da armadilha das suas vidas, ou aos imigrantes sem-abrigo que dormem à porta da igreja. Não há ordem e, neste ambiente, as vítimas podem também ser os vilões."

As coisas pioraram visivelmente no último ano, comenta. Muitos pensionistas recusam-se agora a sair de casa, porque têm medo de ser apanhados por “xenoi”, estrangeiros de África e Ásia, que hoje os ultrapassam em número no bairro. Em resposta, bandos de extrema-direita policiam as ruas e atacam mesquitas improvisadas em caves, com imigrantes do Bangladeche a rezar no interior.

Muitos desses grupos pertencem ao Chrysi Avgi, o Alvor Dourado, um grupo marginal fascista, desprezado pela maioria dos gregos. Nas eleições provinciais de outubro passado, residentes exasperados de bairros atenienses com alta criminalidade contribuíram para a eleição do dirigente do Chrysi Avgi, Nikolas Michaloliakos, para o conselho municipal de Atenas, pois prometeu reprimir a criminalidade e expulsar os imigrantes, presumíveis responsáveis por ela.

Michaloliakos tem-se feito notar por saudar os colegas do conselho com a saudação nazi. Apesar de o Chrysi Avgi não ter perspetivas de ganhar assentos parlamentares, "a sua aparição na política revela que, à medida que o apoio aos dois principais partidos gregos vai enfraquecendo, abre-se espaço para as franjas", defende Stathis Kalyvas, professor de Ciências Políticas na Universidade de Yale, que acompanha de perto os acontecimentos na sua terra natal.

A maioria dos gregos não é xenófoba, mas a crise deu a essa cultura isolacionista, um pouco paroquial, mais espaço. Muitos começam a contestar os europeus, especialmente os alemães, que os julgam, muitas vezes injustamente, como gastadores preguiçosos com um excesso de direitos. Outros responsabilizam o FMI, que temem estar a tentar tomar conta da Grécia. Já vi panfletos do movimento “comprar grego", que apelam ao orgulho e à defesa da economia nacional através da promoção dos produtos gregos.

Honra lhe seja feita, Dimitra, a avó, lutava contra este isolacionismo quando a conheci, no mês passado. É firme e direta, com cabelo grisalho curto, óculos de professora e um sorriso desarmante de menina. Ficou ao meu lado durante uma cerimónia em memória de um homem do Bangladeche que foi esfaqueado até à morte em retaliação pelo assassínio de um angariador de seguros, no mês passado. A multidão já se manifestava irritada, quando cheguei. "Estrangeiros fora da Grécia!", gritavam, agitando bandeiras gregas. E foram perseguir um infeliz imigrante africano que andava aos caixotes, recolhendo comida e latas de refrigerante para reciclar, a troco de dinheiro. Bandos de jovens gregos suados enrolaram as bandeiras e pegaram nos varões, como varapaus, prontos para lutar. Quando a multidão entoou com raiva o hino nacional, Dimitra recusou-se a juntar-se a eles. "Este não é o meu país", disse ela, chorando. "Porque ignorámos os nossos problemas e os deixámos ferver até chegar a uma coisa assim tão feia?".

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