A Europa das cabines de interpretação

O Parlamento de Estrasburgo (e a Comissão Europeia em Bruxelas) está a utilizar vinte e três línguas de trabalho. A compreensão entre os povos é assegurada pelos intérpretes. Resistentes à tensão, entusiastas, curiosos e, sobretudo, confiantes.

Publicado em 24 Maio 2009 às 17:13
Sessão do Parlamento Europeu em Estrasburgo em 2006. PE - Bernard Rouffignac

Vinte e sete Estados-membros, com 785 deputados eleitos pelos cidadãos europeus de cinco em cinco anos, trabalham com constância sobre questões cujo impacto sobre a vida dos habitantes da União Europeia é imediato. Exprimir-se na sua própria língua é um dos direitos inalienáveis dos deputados europeus. As línguas oficiais são vinte e três, uma verdadeira cacofonia de Babel, não fosse o pequeno exército discreto e eficaz das pessoas que, quase imateriais e invisíveis, traduzem nas suas cabinas de vidro os discursos dos oradores, à medida que os recebem nos seus auscultadores.

Olga Cosmidou é a directora-geral dos serviços de interpretação. Com a sua equipa, cabe-lhe, entre outras coisas, recrutar bons intérpretes nos diversos países: "A minha equipa assegura que o direito de cada deputado a exprimir-se na sua língua se concretize, e que o serviço de traduções disponha dos documentos em cada uma das línguas da União. Em comparação, o serviço de tradução das Nações Unidas, com as suas seis línguas oficiais, é uma brincadeira. Além disso, temos também sistemas combinados: o intérprete estónio, por exemplo, traduz para inglês os discursos do deputado do seu país, que outros traduzem do inglês para outras línguas. A qualidade tem uma grande importância, porque a interpretação é uma cadeia, cuja força depende do seu elo mais fraco. As semanas de sessões plenárias, em Estrasburgo, são tão sobrecarregadas que, entre funcionários e ‘free-lances’, recorremos a quase quatro mil intérpretes.”

A selecção é impiedosa e os padrões são os mais altos do mundo. "Um intérprete deve dominar todos os assuntos sem ser perito no que quer que seja (deve ser mestre em tudo e perito em nada)”, diz sorrindo Rita Silva, responsável, desde 1986, pela Unidade de Programação Central da equipa de intérpretes portugueses. “Devemos estar constantemente informados sobre os assuntos mais variados, susceptíveis de serem abordados no Parlamento. Acabamos por ficar com uma estranha cultura enciclopédica. Afinal, é a curiosidade intelectual que leva alguém a enveredar por este tipo de carreira. Mas é necessária também uma grande humildade. É necessário estar disposto a admitir erros, porque pode sempre acontecer enganar-se ou compreender mal. Neste caso, pede-se desculpa, solicita-se ao deputado que repita e prossegue-se.”

Sempre que um novo país entra para o Parlamento Europeu, é preciso encontrar novos intérpretes que estejam à altura. Procuram-nos nas universidades, escolas de intérpretes e entre professores de línguas. Anna Grzybowska é a chefe da “cabina polaca” e é também responsável pelas missões no estrangeiro do grupo de intérpretes que entrou com o alargamento a mais dez países, em 2003. “A entrada da Polónia e outros nove países (República Checa, Estónia, Letónia, Chipre, Lituânia, Hungria, Malta, Eslovénia e Eslováquia) foi, para este organismo vivo que é o Parlamento Europeu, como uma passagem para a adolescência. E sabe-se que, para os pais, esse período nunca é fácil. Lamento que certas pessoas tenham ficado desiludidas, talvez as expectativas fossem demasiado altas. Há muitas coisas que não estão na mão do Parlamento Europeu, que são apenas privilégio dos Estados-membros".

Elisabetta Palmieri começou como “freelance” e, ao fim de vinte anos, conseguiu entrar para o corpo de funcionários, que conta quatrocentos intérpretes. "O nosso trabalho não consiste apenas em traduzir em tempo real o que a pessoa diz, mas tratar do acto de comunicação como um todo, o que é feito frequentemente, para além das palavras, de subentendidos, da dimensão física e do contexto em que o orador pronuncia o seu discurso. É um trabalho cansativo, sobretudo nas sessões plenárias, em que os deputados têm um ‘tempo de palavra’ que vai de um a cinco minutos. E tentam explorá-lo ao máximo. Frequentemente, os discursos são debitados a uma velocidade que é, para nós, um verdadeiro desafio”.

Por vezes, são confrontados com incidentes embaraçosos, como no dia em que Berlusconi chamou “kapo” a Martin Schultz. Susanne Altenberg, da Escola de Intérpretes de Colónia, estava presente em cabina nesse dia. “Vi a minha colega empalidecer e ter de traduzir o insulto lançado a Schultz. Mas são coisas que acontecem. A política acende paixões e, às vezes, os espíritos inflamam-se".

Comissão

Anglófonos precisam-se

A Comissão Europeia iniciou uma busca intensiva com o intuito de encontrar intérpretes ingleses. «Nos próximos dez anos, 50% dos existentes passarão à reforma», salienta o diário neerlandês NRC Handelsblad. E isto e uma má notícia porque dos «anglófonos, já de si pouco dotados para as línguas, poucos são os que as estudam», acrescenta o jornal homólogo De Volkskrant. O NRC adianta que «são raros os alunos do secundário britânicos que escolhem uma língua estrangeira para o exame final» e explica que este facto é sem dúvida consequência da globalização e da posição preponderante do Inglês nas relações internacionais. Para fazer face à falta iminente de intérpretes ingleses, a Comissão Europeia lançou uma campanha no YouTube.

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