O Danúbio na localidade de Ritopek (Sérvia). Lošmi

A Leste, um novo mapa regional

Vinte anos depois da queda da cortina de ferro, a Europa é hoje muito mais oriental do que sulista. O Báltico, o Danúbio e até o Mar Negro apresentam-se como macro-regiões de interesse prioritário para a União Europeia. O sul mediterrânico, vítima dos grandes desequilíbrios sociais e económicos entre as suas duas margens, fica em segundo plano.

Publicado em 23 Outubro 2009 às 14:25
O Danúbio na localidade de Ritopek (Sérvia). Lošmi

Pavel Samecki, comissário europeu para a política regional, não poderia ter sido mais claro esta semana, em Bruxelas: "Precisamos de alargar a cooperação com os nossos vizinhos, porque isso é vital para o crescimento e para a estabilidade, e o nosso vizinho mais importante é a Rússia". Bastam dois números para explicar esta afirmação: 40% da energia que a UE recebe é proveniente da Rússia e 51% das importações russas provêm da UE.

Há anos que, face aos desafios da globalização, a UE considera a hipótese de desenvolver regiões competitivas. Agora, há duas que se destacam das restantes: o Báltico e o Danúbio, cada uma com uma estratégia específica e de olhos postos na Rússia. Trata-se de macro-regiões, um conceito novo, que se julga ser mais adequado para superar os desafios do futuro e que, além disso, se entronca com a Europa do século XV, anterior à ordem baseada na soberania dos Estados. "As regiões", explica Daniel Tarschys, ex-secretário-geral do Conselho da Europa, "têm uma dualidade muito interessante: são mais pequenas do que um Estado mas, ao mesmo tempo, também podem ser maiores do que um Estado."

Segundo Danuta Hübner, ex-comissária europeia para a Política Regional, a concentração regional "não pode ser travada". "Pode ser regulada, mas só isso. A cooperação regional vai continuar a aumentar e será cada vez mais complexa. Abre-se, portanto, um novo território que, ao contrário do que poderia parecer, não irá fragmentar a UE e até a tornará mais coesa", explica.

Maior cooperação a este-oeste que a norte-sul

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A energia e o comércio são os dois motores que movem as novas macro-regiões. O Báltico, por exemplo, que recebeu um empurrão fundamental durante a presidência sueca da UE que agora termina, mantém uma relação estreita com a região russa de Murmansk para a exploração das rotas comerciais do Mar de Barents, mais gelado ano após ano devido às alterações climáticas.

"A cooperação económica", defende Kari Aalto, presidente do Comité Regional de Barents, "é muito mais importante entre o Leste e o Oeste da Europa do que entre o Norte e o Sul. Por razões históricas e por interesses mútuos." Evgeni Nikora, presidente do Parlamento Regional de Murmansk, não duvida de que o futuro da sua cidade portuária passa por ser a ligação entre o Báltico e o Pacífico Norte. "Queremos alargar a rede ferroviária com o Báltico para servir o porto de Murmansk", anuncia. Considera que o gelo já não é um impedimento para a navegação: "Quando há campos de gelo, a única coisa que acontece é que o transporte é mais caro." De momento, as únicas linhas mercantes entre Murmansk e a Noruega transportam contentores mas é apenas uma questão de tempo até por elas navegarem também petroleiros. Os hidrocarbonetos siberianos terão assim uma nova saída para a Europa.

Poderosos grupos de pressão

O petróleo do Cáucaso é também um dos principais argumentos a favor da macro-região do Mar Negro, em gestação há, pelo menos, dois anos e apoiada por outros lobbies da Europa Central que, com o patrocínio da Alemanha, se mostram mais fortes do que os mediterrânicos.

A razão de ser da macro-região do Danúbio – impulsionada pelo Baden-Württemberg, – é comercial, além de histórica e cultural. O rio, coluna central da Europa, será ainda mais importante no futuro. "Para nós, é fundamental", reconhece Gabor Demszky, presidente da Câmara de Budapeste. "Trata-se de um espaço natural que teria de ser organizado, mesmo que a UE não existisse. Para que tudo fique bem claro, a UE forçou a Hungria a dividir-se em regiões artificiais, para poder candidatar-se às ajudas económicas."

A concha vazia da União para o Mediterrâneo

O espaço natural, histórico e cultural do Mediterrâneo mantém-se indistinto devido às grandes diferenças, de todo o tipo, entre as suas duas margens e à preponderância dos interesses energéticos dos Estados. "Até agora, a cooperação não tem dado frutos", admite um diplomata francês, que prefere o anonimato porque não está autorizado a fazer declarações. "E a União para o Mediterrâneo, que Sarkozy impulsionou há dois anos, não passa, neste momento, de propaganda política."

A presidência espanhola da UE, a partir de Janeiro, impulsionará esta união mas não se prevê que faça alguma coisa para modelar uma macro-região em torno do chamado Arco Mediterrânico latino, que vai da Sicília ao Mar de Alborão. Perante esta ausência de liderança, a Catalunha desenvolve esforços em Bruxelas, através da delegada da Generalitat, Anna Terrón, no sentido de unir a região europeia Pirinéus-Mediterrâneo com a dos Alpes-Mediterrâneo, completando um mini-arco entre Génova e Tarragona, que inclui as Baleares e cidades-chave como Barcelona, Marselha, Turim e Milão. Aos laços históricos e culturais desta zona em gestação junta-se o interesse comercial de ser a grande porta do sul da Europa.

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