Na turfeira, por entre um campo de linhas negras de turfa empilhada como blocos de madeira do jogo Jenga, Michael Fitzmaurice lança um olhar de desafio ao avião que inspeciona a sua indústria. A aeronave procura alguém que ainda esteja a cortar, empilhar ou recolher turfa - uma atividade que a UE considera ilegal. “É espantoso que, estando o país em recessão e quase na falência, as autoridades gastem dinheiro a por um avião no ar para vigiar os cortadores de turfa”, argumenta enquanto quebra um bocado do negro combustível natural que tem nas mãos.
“Durante a época de corte tem havido helicópteros e aviões, e também agentes em carrinhas a vigiar as turfeiras para nos impedir de fazermos o que os nossos antepassados fizeram durante séculos. E tudo porque têm medo que a UE multe a Irlanda, caso a extração de turfa continue.”
A UE classificou este bocado pantanoso e húmido de terra irlandesa como Área Especial de Conservação e legislou contra a continuação da extração de turfa, para preservar as turfeiras.
O governo irlandês receia que a UE venha a aplicar-lhe pesadas multas pela violação de diretivas ambientais estabelecidas há 14 anos. Mas Fitzmaurice, de 43 anos, que começou a extrair turfa com o seu pai quando tinha quatro anos, rejeita a ideia de que o governo do seu país tem que aderir ao decreto ambiental de Bruxelas só porque a Irlanda deve tanto à UE. “Não foram os cortadores de turfa nem as suas famílias quem levou este país à falência. Foram os bancos e os construtores civis e os seus amigos políticos quem colocou a Irlanda neste caos. Se não somos os responsáveis por que razão temos que pagar um preço tão alto só para cumprir o que a Europa manda?”
No entanto, a versão irlandesa do National Trust, An Taisce, insiste em dizer que o governo do Fine Gael-Labour tem que impor esta proibição. Os ecologistas irlandeses confirmam que as turfeiras são únicas, e um dos habitats naturais mais frágeis e esgotados do planeta. “As turfeiras, se estiverem intactas, são mais valiosas para a sociedade do que os interesses económicos, limitados e de curto prazo, de uma minoria de cortadores de turfa,” afirma um porta-voz do An Taisce. O grupo ambientalista realça que a necessidade de parar a extração de turfa “está com 10 anos de atraso.” Mas os homens e mulheres que trabalham as turfeiras da Irlanda têm um campeão em Dublin, o deputado por Roscommon South Leitrim, Luke "Ming" Flanagan.
De barbicha e cabelo comprido, apresenta algumas semelhanças com o vilão dos filmes de ficção científica de Buck Rogers. Mas Flanagan, um deputado do Dáil independente e radical, leva muito a sério a defesa do direito à extração de turfa. “As autoridades estão a ameaçar estas pessoas com sanções criminais e financeiras. Ouvi casos de cortadores de turfa que também são lavradores, a quem disseram que o subsídio que recebem da UE terminaria se não parassem de extrair a turfa. “De momento estamos num impasse, há um cessar-fogo na turfeira. Mas estamos a entrar num período crítico e gostaria que se chegasse a um compromisso, que uma pequena parte das turfeiras se mantivesse aberta para a extração. “Estamos a falar da sobrevivência de cerca de 18.000 pessoas que ou trabalham como cortadores de turfa ou dependem dela para combustível. Que alternativas têm – importar mais carvão da Polónia ou petróleo do Médio Oriente?”
Na turfeira próxima daquela onde Fitzmaurice trabalha, Tom Gibney hasteou a bandeira tricolor irlandesa sobre o seu pedaço de chão. “Tenho o registo desta turfeira, do tempo da soberania britânica em 1896, emoldurado numa parede em minha casa. “O documento ainda tem a coroa britânica no topo. E, agora que supostamente somos um país independente, não desisto dela nem do direito a extrair um pouco de turfa.”
Não muito longe, numa cabana húmida, Ella McKeague de 87 anos aquece-se junto ao lume. O forte odor do fumo de turfa enche-lhe o quarto. Ao lado da casa existe uma pequena turfeira que lhe pertence e de onde os vizinhos extraíram recentemente turfa suficiente para manter quente a frágil pensionista para o resto do ano. “Não tenho dinheiro para comprar óleo. Todos dependemos da turfa para chegar ao fim de cada ano. “Diga-lhes que nos deixem continuar a extrair a turfa como o fiz durante 60 anos,” afirma enquanto avança apoiada no seu andarilho e se inclina para colocar mais alguns pedaços do combustível natural, preto e castanho, no lume.