Espanha e Itália em espiral

Cada dia que passa enfraquece ainda mais os dois países face aos mercados. Quanto mais elevados os custos do financiamento das respetivas dívidas, menores são as possibilidades destes países de sair da crise. E, por enquanto, ninguém sabe como parar esta dinâmica.

Publicado em 3 Agosto 2011 às 14:48

Esta semana, escalada do prémio de risco espanhola e italiana (a de Espanha chegou a ultrapassar os 403 pontos base, por comparação com os juros alemães e encerrou acima dos 380) pôs ambos os países em situação de emergência. O alarme político desencadeado pelo castigo sem fim dos mercados bolsistas e financeiros traduziu-se em consultas políticas do primeiro-ministro, José Luis Rodríguez Zapatero, com os partidos da oposição para analisar as possíveis respostas à grave deterioração da solvência espanhola e afastar os temores sobre um possível resgate de Espanha, que Bruxelas desmentiu.

A pressão constante dos mercados contra as dívidas espanhola e italiana aponta contra a sobrevivência da zona euro, que está praticamente à deriva, por ainda não dispor dos recursos políticos necessários para conjurar a especulação contra as dívidas nacionais

O diagnóstico já está feito, mas a Europa continua sem resolver o cerne da crise grega nem oferece a imagem de uma direção económica única. Entretanto, Espanha e Itália continuam atadas à contradição insanável que surge quando se aplica um plano drástico de ajuste fiscal. Quanto mais profundos são os cortes que se exigem a um país, mais caem as suas expectativas de crescimento. Os investidores percebem que sem crescimento não se pode devolver o financiamento recebido. Portanto, aumenta o custo do refinanciamento, o que por sua vez restringe um pouco mais a já minguada atividade. E o ciclo repete-se até que o resgate seja inevitável.

O mês de agosto vai ser uma dura prova para Espanha e para Itália. Os investidores não valorizaram a antecipação das eleições porque é um elemento marginal comparado com os fatores económicos mencionados, como a raquítica capacidade de crescimento (com sorte, este ano o PIB espanhol conseguirá aumentar 0,7%), a estagnação da economia mundial (evidente no caso dos Estados Unidos) e a péssima gestão política da crise na Europa.

Peste ou cólera

Nem a Alemanha nem o BCE põe em prática os critérios de reforma financeira expostos na última cimeira europeia. Entretanto, a Europa desliza para uma crise irreversível. Se a Itália e a Espanha, respetivamente terceira e quarta economias da zona euro, tiverem de recorrer a um plano de resgate, o desastre da moeda única será total.

A margem de manobra do governo espanhol oscila entre o mau e o pior. Se o prémio de risco não baixar, o custo crescente do serviço da dívida devorará qualquer margem de manobra de política pública. A recuperação já é difícil com um diferencial da dívida superior aos 100 pontos base; com 400, é impossível sair da estagnação, criar emprego e baixar o desemprego de maneira significativa.

Uma resposta ortodoxa (sugerida pelo FMI) seria apresentar à Europa e aos mercados um corte orçamental adicional, de cerca de 2% do PIB. Mas essa decisão teria efeitos sobre o crescimento que equivaleriam à estagnação que provoca o escandaloso aumento dos custos financeiros. Significaria renunciar à recuperação durante o próximo lustro.

Os dados estão lançados. E, perante o fracasso das fórmulas mais ortodoxas, é necessário procurar novos caminhos, como uma atuação decidida e imediata do BCE (compra maciça de dívida espanhola e italiana) e a aceitação de uma dívida europeia que substitua as dívidas nacionais.

Zona Euro

Não haverá remédio tão cedo

Perante a possibilidade de a crise na zona euro se espalhar a Espanha, Itália e Chipre, “os governos da zona euro aceleraram os esforços de constituição de um fundo de resgate de 440 mil milhões de euros”,escreve o Financial Times. A 21 de julho, “concordaram em dotar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira da capacidade de readquirir, nos mercados abertos, os títulos dos governos atingidos, concedendo-lhes linhas de crédito a curto prazo e liquidez para ajudar a recapitalizar os bancos em dificuldades”. Com os prémios de risco de Espanha e Itália a subirem, “a possibilidade de recomprar títulos espanhóis e italianos a preços vantajosos seria uma maneira de ajudar a estabilizar os mercados”.

“No entanto, os diplomatas e funcionários europeus sabem que levará semanas – meses, muito provavelmente – até que os novos poderes do FEEF possam ser postos em prática”, escreve o FT, acrescentando que há funcionários da zona euro a acelerarem o seu trabalho para produzirem um documento preliminar. O texto final terá, depois, de ser “assinado pelos 17 governos da zona euro, e ser submetido a um processo de ratificação que inclui, na maioria desses países, uma aprovação parlamentar”.

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