Apesar de ser apenas uma mera sombra de si mesma, Merkel deverá manter-se no comando até 2013.

Não há nenhuma outra chanceler do que Angela Merkel

Angela Merkel encontra-se num ponto de viragem. Nas eleições de ontem, os Verdes conquistaram o feudo conservador do Baden-Württemberg, colocando o país de pernas para o ar. Agora, os Verdes são um grande partido. Mas, ainda assim, a chanceler vai continuar no comando. Porque tinha previsto a crise.

Publicado em 28 Março 2011 às 13:59
Apesar de ser apenas uma mera sombra de si mesma, Merkel deverá manter-se no comando até 2013.

As eleições de domingo no Baden-Württemberg e na Renânia-Palatinado tiveram um único vencedor: o partido Os Verdes. Os ecologistas conseguiram aumentar as esperanças dos eleitores alemães numa nova política. Contudo, agora têm de cumprir o prometido. Não vai ser fácil. O cancelamento do grande projeto ferroviário e urbano Stuttgart 21, na capital do Estado, irá eliminar empregos e investimentos importantes em infraestruturas – por muitos que sejam os eleitores que querem vê-lo desaparecer. Em matéria de energia nuclear, o encerramento de dois reatores no Estado suprimirá montantes significativos de receitas fiscais. Tais mudanças irão sem dúvida abalar a Alemanha, muito para além das fronteiras deste Estado do sudoeste.

Ainda assim, os resultados das eleições mostram que os Verdes têm uma coisa que, neste momento, falta aos outros partidos: um perfil claro. Têm credibilidade e representam uma visão. Claro que os Verdes não são o único partido a festejar os resultados das eleições de domingo. O SPD (Partido Social-Democrata Alemão, de centro-esquerda) também está em festa, embora não seja óbvio porquê. Na Renânia-Palatinado, a consulta eleitoral custou-lhes perto de dez pontos percentuais, quase os fazendo perder o governo do Estado.

No Baden-Württemberg, o SPD desempenhará um papel secundário em relação aos Verdes na nova coligação governamental. Na verdade, o SPD não conseguiu tirar partido da situação, numa altura em que o Governo de Angela Merkel – que reúne a CDU (União Cristã-Democrata) da chanceler e os liberais-democratas do FDP – salta de crise em crise em Berlim. Foram sobretudo os Verdes a beneficiar dessa situação. É evidentemente tentador prever a queda de Angela Merkel, após o desastre sofrido pela CDU-FDP no Baden-Württemberg. Contudo, fazê-lo seria incorreto. Não há dúvida de que a chanceler cometeu erros.

Os próximos dois anos deverão ser dolorosos

Recompensou o governador Günter Oettinger (CDU), enviando-o para Bruxelas. Os caminhos em ziguezague que seguiu nas áreas do nuclear e da política externa também não ajudaram: a iniciativa de fechar reatores nucleares, a abstenção no Conselho de Segurança da ONU sobre a zona de exclusão aérea na Líbia e o dispendioso pacote de resgate do euro deram a volta aos estômagos dos seus próprios partidários. Para além das derrotas eleitorais, o seu Governo tem pouco para mostrar, ao fim de ano e meio no poder em Berlim. E a lista não fica por aqui.

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Pior ainda: os próximos dois anos – antes das eleições gerais de 2013 – deverão ser dolorosos. A coligação CDU-FDP há muito que perdeu o controlo do Bundesrat, a câmara alta do Parlamento alemão. E a frustração existente no seio dos dois partidos deverá dar origem à discussão da orientação política. Devido às perdas eleitorais sofridas pela CDU, Angela Merkel não tem a força política, para já não falar do carisma pessoal, necessários para conter tais discussões. O ressentimento contra a chanceler está a aumentar, em especial na ala conservadora do seu partido.

Apesar disso, Angela Merkel vai continuar no cargo. Afinal, há muito que vem a preparar-se para estes tempos difíceis. Na CDU, não há ninguém capaz de lhe disputar o lugar. Todos os seus potenciais adversários aceitaram a derrota ou foram afastados pela chanceler e chefe da CDU. O caso mais recente foi o de Karl-Theodor zu Guttenberg, frequentemente apontado como possível sucessor de Angela Merkel, que se demitiu do seu Gabinete depois de ter admitido que plagiara parte da sua tese de doutoramento.

O que fazer com Westerwelle?

Não resta ninguém para provocar um golpe dentro do partido. A CDU está acorrentada a Angela Merkel, pelo menos até às próximas legislativas. Portanto, Angela Merkel, a artista da sobrevivência, vai poder continuar a governar, talvez com os Verdes, no quadro de uma nova coligação. Se quiser encarar essa opção estratégica, a chanceler terá de mostrar uma maior abertura nesse sentido. O encerramento temporário das sete centrais nucleares mais antigas da Alemanha terminará dentro de três meses. Prolongá-lo ou mesmo eliminar de forma permanente essas centrais seria um forte sinal no sentido de uma parceria com os Verdes.

E um indício de afastamento em relação ao FDP. A popularidade da chanceler entre a população mantém-se elevada, enquanto a dos seus atuais parceiros de coligação vai bastante mal. O FDP, liderado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, teve resultados eleitorais desastrosos nas eleições de domingo nos dois Estados e poderá estar a caminho de uma reorganização da liderança.

Westerwelle tornou-se um fardo às costas de Angela Merkel e dentro do seu próprio partido. Prejudica a coligação e a política externa alemã, como se viu recentemente na forma desastrosa como lidou com o problema da zona de exclusão aérea. A única saída seria uma revitalização substancial do FDP. E, no domingo, os eleitores alemães deixaram claro que isso poderá já não ser possível.

Contraponto

Como governar sem linha política?

Segundo a capa da Focus, "Miss Erfolg" (Miss sucesso) transforma-se em "Misserfolg" (fracasso), consoante o ponto de vista segundo o qual a encararmos: quanto tempo poderá Angela Merkel continuar a governar, sabendo-se que a chanceler acumula preocupações políticas como quase nenhum outro chefe de Governo anterior?, interroga-se o semanário alemão. Na crise do euro, Angela Merkel mudou de opinião quase todos os meses e, no "póquer de Bruxelas" do fim de março, acabou por ceder e por prometer que a Alemanha contribuiria com 4,3 mil milhões de euros anuais, e até 2017, para o Fundo Europeu de Resgate Financeiro, "uma concessão que ainda em fevereiro era impensável". Em matéria de nuclear, fez uma viragem de 180 graus, encarando o abandono do átomo. Por último, no domínio da política externa, isolou-se dos seus parceiros, ao recusar-se a apoiar a intervenção na Líbia.

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