Numa rua de Zagrebe, Croácia.

Nem dentro, nem fora

“Cesto de caranguejos”, “barril de pólvora do sudeste”, “berço da Europa” ou “herdeiros de Bizâncio”... a identidade dos Balcãs é tão complexa que a União Europeia tem dificuldade em identificar os países que os compõem e em encontrar a melhor atitude a ter perante cada um deles.

Publicado em 30 Setembro 2010 às 16:14
Numa rua de Zagrebe, Croácia.

Um dos estereótipos da política europeia é o retrato “negro” dos Balcãs: o “barril de pólvora” do sudeste, uma coleção sombria de nacionalismos irreconciliáveis, intolerância e violência; o Kosovo, o atrofio económico, o fundamentalismo, etc. Todos os vícios da pré-modernidade, do totalitarismo, do não europeísmo parecem concorrer entre si para definir um território doentio, insidiosamente empurrado para as margens da civilização ocidental. Do ponto de vista dos países desenvolvidos, é difícil dizer o que é que sai mais caro: fazer o esforço de integrar economicamente uma região atrasada, evitando assim os riscos da sua involução, ou abandonar a região, podendo, no entanto, serem obrigados a grandes despesas militares, para resolver as crises decorrentes desse mesmo abandono.

Incomodados com um tal retrato, alguns países dos Balcãs tentam livrar-se da sua localização geográfica: a Croácia e a Eslovénia esforçam-se por “migrar” para uma posição centro-europeia. A Roménia, que fica no norte do Danúbio, porta-se, por vezes, talvez com uma certa justificação, como o “árbitro” da zona, colocando-se fora dela.

O cordeiro sacrificado da ingrata civilização ocidental

Outros Estados, não podendo invocar argumentos tão válidos que atestem a sua não balcanidade, procuram salvar-se construindo uma espécie de utopia do “milagre” balcânico. O retrato sombrio é, assim, substituído por uma imagem de euforia: os Balcãs são o berço da Europa (e a origem do seu nome, inventado pelos Gregos), os Balcãs são o sal e a pimenta do continente, o seu viveiro de autenticidade e de tradição. A Grécia antiga e Bizâncio são invocadas enquanto referências que os definem.

Às grandes virtudes fundadores são acrescentadas as conotações do martírio. Os Balcãs são as vítimas da política ocidental, o cordeiro sacrificado, o capital de sofrimento da ingrata civilização ocidental que, afinal de contas, não seria possível sem os contrafortes orientais. O orgulho de ser balcânico, no entanto, não consegue resolver as tensões crónicas que atravessam, profundamente, a região. Cada um dos países dos Balcãs se considera como o “verdadeiro” centro dos Balcãs.

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Assim, engendra-se uma luta feroz pela liderança, um delírio de vaidade identitária, oscilando entre o patético e o ridículo. A tudo isto acresce, para complicar ainda mais as coisas, a imagem que a União Europeia tem dos Balcãs. Quer ser benevolente, justa, “politicamente correta”, mas limita-se, muitas vezes, a uma análise estritamente quantitativa, aos preconceitos e ao que é didático.

Bruxelas sem tempo para compreender nem paciência para ouvir

Bruxelas não tem nem tempo para compreender, nem paciência para ouvir. Porta-se ou com paternalismo excessivo (“sabemos melhor do que vocês o que melhor vos convém”), ou com uma amabilidade deferente, contraproducente (“não vos queremos dar lições, não temos o direito de vos impor nada”). A primeira versão irrita o orgulho local, a segunda encoraja a suficiência estéril. Deduzimos que é tão difícil ajudar como aceitar ser-se ajudado.

O “núcleo” europeu continua a não substituir o cliché sobre os Balcãs, a carga pejorativa de uma denominação geográfica, por uma soma de conhecimentos aprofundados sobre a região. Se queremos “salvar” esta zona só para nos protegermos contra eventuais complicações “fronteiriças”, nunca saberemos se estamos realmente a salvá-la. A questão será então: porque é que os países da região merecem ser salvos, que valores europeus se perderiam com o fracasso de uma política balcânica arbitrária. Sem esta perspetiva, os Balcãs continuarão, como dizia alguém, “um inferno, pejado de más intenções das grandes potências”.

Eleições

Nasa Stranka, um partido que advoga um Estado multiétnico

Nas eleições legislativas de 3 de outubro, três intelectuais de Sarajevo, Danis Tanovic - galardoado com o óscar de melhor filme estrangeiro, em 2001, com Terra de Ninguém - Dino Mustafic, encenador, e Pedja Kojovic, ex-operador de imagem da agência Reuters, vão apresentar o seu próprio partido político, escreve [Le Monde](http://www.lemonde.fr/). Fundado em 2008, Nasa Stranka ("Nosso Partido") advoga uma Bósnia multiétnica. Na República sérvia, o partido formou "uma coligação com o único movimento sérvio antinacionalista, o Novo Partido Socialista (NSP) de Zdravko Krsmanovic, o presidente da Câmara de Foca". Apesar de não apresentar um candidato à presidência, o Nasa Stranka espera entrar nos três parlamentos (o da Bósnia-Herzegovina e o das duas "entidades" sérvia e croata) e também nos conselhos cantonais. "Num país em que os cidadãos estão desesperados e os eleitores são abstencionistas (...) o Nasa Stranka espera um milagre, uma revelação", conclui Le Monde.

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