No país das boas pessoas

Na Alemanha, o mínimo descuido pode ter efeitos desproporcionados. Os ministros sofrem as consequências uns atrás dos outros por plagiar teses ou viajar para locais tropicais. Por que será a Alemanha tão suscetível?

Publicado em 15 Fevereiro 2013 às 13:29
Da esquerda para a direita: Peer Steinbrück do SPD, ex-ministra da Educação Annette Schavan, vice-presidente do FDP Rainer Brüderle (em cima), ex-ministro da Defesa Karl-Theodor zu Guttenberg.

Escândalo! O líder do grupo FDP [no parlamento alemão], Rainer Brüderle, acaba de proporcionar um vasto debate sobre o sexismo pelos seus comentários depreciativos sobre [uma jornalista] e por lançar um olhar furtivo [ao peito desta última].

Escândalo! O candidato a chanceler, Peer Steinbrück pelo [SPD] ganhou cerca de €1,25 milhões com atividades legais, e devidamente declaradas.

Escândalo! O antigo presidente da República Federal Horst Köhler indignou metade da Alemanha ao declarar, numa viagem ao Afeganistão, que o exército alemão também representava interesses económicos – algo que já constava num documento do Ministério da Defesa.

Escândalo! Suspeito de ter tido um comportamento desonesto [num caso de pagamento de um quarto de hotel], o presidente federal Christian Wulff foi forçado a demitir-se – apesar da quantia em questão rondar apenas os €400.

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Pecadilhos

Se refletirmos sobre os escândalos políticos da legislatura em vigor, chegamos à conclusão de que não há matéria para nos indignar. Algo que também se aplica à demissão da ministra da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg, que plagiou grande parte da sua tese. No estrangeiro, estes pecadilhos que ofenderam os alemães são motivos para se rir. Ou são incrivelmente rigorosos, ou então por estarem na posição em que estão, aproveitam o mínimo descuido para se irritarem.

Há outros países com casos que chamam muito mais a atenção. O antigo ministro austríaco Ernst Strasser foi recentemente condenado a quatro anos de prisão por corrupção. O antigo candidato às presidenciais, o francês Dominique Strauss-Kahn foi suspeito de ter forçado uma empregada de limpezas a fazer-lhe uma felação. O antigo presidente do conselho italiano Silvio Berlusconi foi acusado de abuso de poder e de cumplicidade num caso de prostituição de menores. Está também sujeito a uma pena de quatro de prisão por fraude fiscal.

Ao lado, a Alemanha parece um paraíso. Mas nem por isso mostra serenidade. Todos os meios de comunicação fizeram a cobertura dos casos acima mencionados, procurando pormenores sobre os casos e imaginando títulos sensacionalistas. Os cidadãos ficaram chocados com estes casos, e os dirigentes políticos implicados caíram nos inquéritos. Por tão pouco?

Um país é avaliado com base nos seus escândalos políticos. O grau de indignação revela muito sobre o caráter de uma nação. Tal como a falta de indignação. Em 2010, o psicanalista italiano Sergio Benvenuto evocou o caso da Itália em Carta Internacional. Silvio Berlusconi, diz ele, faz política para os clientes de “cafés-bares”, este “império do politicamente incorreto”, onde reina a vulgaridade e se critica os políticos, a não ser que sejam “apolíticos” como Silvio Berlusconi. Sergio Benvenuto explicou portanto o segredo por trás da longevidade deste último.

Não é para os fiéis clientes de cafés-bares que se faz política na Alemanha. O coração do país bate nos supermercados biológicos, onde as mulheres e os homens lutam por um mundo melhor ao comprar produtos biológicos. Por cá prevalecem os princípios de responsabilidade, sensibilidade, justiça. Este mundo é um mundo limpo, e não um universo com fraca reputação como é o caso dos cafés-bares. O supermercado biológico coloca a fasquia ainda mais alta para os políticos, estando estes mais sujeitos a “escândalos”.

Nação virtuosa

Quais são os pontos sensíveis? Nos casos de Annette Schavan (CDU) e Karl-Theodor zu Guttenberg (CSU), é a honestidade. Os líderes políticos não podem mentir nem ser detentores de títulos que não merecem [doutor, neste caso].

As declarações de Horst Köhler fizeram chover críticas porque o país é particularmente sensível ao tema da guerra. Após dois conflitos mundiais, a Alemanha já não quer ter qualquer ligação com intervenções militares. Nomeadamente quando implicam interesses económicos, torna-se totalmente insuportável, porque a Alemanha só tolera a guerra quando esta serve causas moralmente irrepreensíveis, e mesmo assim... Os interesses económicos levantam suspeitas de um país que também é uma potência económica. Os escândalos colocam muitas vezes à luz do dia uma forma de hipocrisia.

Nos casos de Christian Wulff (CDU) e de Peer Steinbrück (SPD), o caso gira à volta do dinheiro e do facto de os políticos levarem um estilo de vida que os afasta do comum dos mortais. Christian Wulff é também suspeito de práticas desonestas. A Alemanha apresenta-se como um país irrepreensível, onde tudo funciona na perfeição por não haver corrupção. Apresenta-se também como um país que defende a igualdade e onde é mal visto ser rico.

O resultado disto tudo é uma nação que quer ser virtuosa em matéria de dinheiro, de guerra, de biografias, que promove a coesão social e que não gosta de disputas violentas. Somos o país das boas pessoas.

A expressão de uma necessidade

O facto de concedermos tanta importância a um escândalo insignificante deve-se ao facto das grandes questões políticas não criarem divisões na Alemanha. Temos um amplo consenso político no que toca a questões relacionadas com a política da União Europeia face à crise, as reformas energéticas e o exército. Além disso, os escândalos estrondosos políticos são raros. Se o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble fosse condenado por fraude fiscal, os “extras” de Steinbrück e a tese de Annette Schavan deixariam de ser notícias de primeira página.

Apesar de ligeiramente ridícula, esta hipersensibilidade pode estar a desempenhar uma função preventiva ao instaurar princípios que fazem deste país um dos mais prósperos do globo e um dos que melhor funcionam. A reação suscitada por estes escândalos derisórios deve-se também ao medo de escândalos de maior dimensão, serve portanto de sinal de alarme. O temperamento alemão não se acomodaria a uma gestão italiana. O supermercado biológico é também um refúgio para angustiados: esperemos que não aconteça nada de grave ao planeta.

Esta verticalidade extrema é digna, sem dúvida alguma, de uma atitude de pequeno burguês. O que não é forçosamente algo sedutor, e por cá também sonhamos com impetuosidade e com a Itália, apesar de, em caso de apuros, preferirmos lidar com a justiça alemã.

Na mente dos alemães, os descuidos dos líderes políticos colocam em causa a sua aptidão em exercer as suas funções. Portanto, os escândalos permitem fazer a distinção entre os que são capazes de desempenhar altas funções e os que não o são.

A severidade dos critérios alemães não deve ser motivo de satisfação. É a expressão de uma necessidade. É provável que o ambiente nos cafés-bares seja muito mais divertido do que nos corredores dos supermercados biológicos, mas os alemães precisam de se manter íntegros para conseguir, sobretudo, viver juntos.

História

A intocável universidade alemã

Duas letras, uma acusação e uma longa história: “No Dr. [doutor] alemão estão várias centenas de anos de história cultural”, afirma o Süddeutsche Zeitung. O diário de Munique explica por que é que um título universitário adquirido de maneira desleal acaba de fazer cair uma ministra, Annette Schavan.

Para os alemães, esse título honra o seu portador com “uma espécie de nobreza” herdada do século XIX, época em que a universidade era a instituição mais importante da comunidade, em todos os Estados germanófonos, escreve o SZ.

Ao contrário dos italianos, para quem a comédia veneziana se ri do "dottore", dos austríacos, para quem o “Dr.” Satisfaz o gosto comum pela pompa, dos franceses, para quem uma “alta escola” vale bem mais do que uma Universidade ou do que os britânicos, que olham mais para o nome da escola do que para o diploma, os alemães estão convencidos “que a universidade alemã é o único e singular lugar do saber”. Mesmo quando “a realidade de hoje já não corresponde” a essa ideia.

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