Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu

O bálsamo de Mario Draghi sobre a crise

Ao declarar que "o BCE está disposto a fazer o que for necessário para preservar o euro", o presidente da instituição enviou um sinal positivo aos mercados, considera a imprensa europeia. Mas, na ausência de mais pormenores, é difícil saber os efeitos a longo prazo.

Publicado em 27 Julho 2012 às 15:54
Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu

"Draghi garante que o BCE vai salvar o euro", anuncia o Corriere della Sera, que destaca que a Bolsa de Milão ganhou 5,62%, após as declarações do presidente do Banco Central Europeu. E em 27 de julho, Roma conseguiu um empréstimo de 8500 milhões de euros a seis meses a uma taxa inferior a 6%. Para o diário, isso revela uma verdade "banal”:

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Não é verdade que governos sem dinheiro e bancos centrais com taxas próximas de zero não possam estimular a economia. Podem e já o fizeram, de uma maneira simples, mas sofisticada: assumindo compromissos para o futuro.

Foi o que fez o presidente da Reserva Federal norte-americana, Ben Bernanke, quando se comprometeu a manter as taxas dos empréstimos a 0%, pelo menos até ao final de 2014, recorda o Corriere della Sera. Draghi, como Bernanke, ajudam, pois, a economia recorrendo à psicologia:

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Com as suas palavras históricas, Draghi não imprime dinheiro, nem cria liquidez. Mas tranquiliza os mercados e proporciona um dos mais raros bens dos nossos dias: confiança.

Em Madrid, *El País* congratula-se com o facto de "a tempestade financeira em Espanha se ter acalmado com um simples gesto do BCE". As "palavras mágicas" de Mario Draghi tiveram um efeito imediato: a Bolsa de Madrid subiu para 6%, e a taxa de juros dos títulos do Estado a 10 anos desceu para valores inferiores a 7%. Mas, pergunta o jornal,

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Porque não reagiu o BCE antes? Uma hipótese amplamente difundida é que quis castigar o Governo [espanhol] pela sua má gestão da crise financeira. E quando a punição afetou a Itália, a autoridade monetária redirecionou a sua política para o objetivo que os governos vêm apregoando: refrear a especulação sobre as dívidas soberanas. Outra explicação possível é que Draghi se tenha pronunciado quando já é irrevogável o salvamento da banca espanhola e o novo mecanismo de estabilidade está praticamente pronto. [ ...] A aparição de Draghi é apenas um primeiro passo, que deve ser interpretado como um indício forte de que a Comissão Europeia já decidiu a forma e o alcance da ação do novo mecanismo de estabilidade [...] A suposição de que o BCE está disposto a intervir bloqueou a especulação contra o euro e afastou temporariamente o risco de rutura na zona monetária. Mas não garante que a Espanha tenha evitado o risco de uma intervenção [um plano de salvamento global].

O jornal espanhol *El Mundo* também constata que "*as palavras mágicas de Draghi causam euforia nos mercados*". Para o diário,

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Nunca, como ontem, o presidente do BCE fez juz à sua alcunha: Supermário. O facto de uma mera declaração de intenções servir para gerar esta reação [dos mercados] demonstra o poder do BCE [...] No futuro, vamos a ver até onde é capaz de chegar o BCE no apoio à nossa economia. Mas a sua declaração sugere que Draghi tem o apoio de Merkel para que Espanha e Itália não se deixem abater sob a pressão dos mercados financeiros.

As reações alemãs são menos entusiastas. Die Welt lamenta que "o BCE revele ser um cavalo de Troia". O diário conservador considera que, contra a expressão de processos democráticos, Mario Draghi transforma

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o símbolo de uma nova Europa, uma Europa das reformas, dos princípios e da moeda estável numa instituição organizadora de uma vasta redistribuição a partir do Norte da Europa

Por seu turno, o Süddeutsche Zeitung salienta que

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Essencialmente, a questão está em saber se o BCE compra títulos do governo espanhol, a fim de reduzir as taxas de juros do país. Draghi e os colegas já investiram 210 mil milhões de euros em títulos estatais de risco, com pouco resultado. Politicamente, o apelo ao BCE é compreensível. As autoridades monetárias têm teoricamente recursos financeiros ilimitados. Nesta situação crítica, isso torna-as simultaneamente fortes e fracas. Fortes, porque o banco central pode apagar rapidamente o incêndio nos mercados financeiros. Fracas, porque isso não resolve problema nenhum. Muito pelo contrário: nos Estados em crise, após ter extinto o fogo, isso provavelmente vai acabar, a breve trecho, com a vontade de empreender reformas.

Já *The Guardian* observa que o compromisso de Mario Draghi em salvar o euro, por mais corajoso que seja, é parco em pormenores:

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Infelizmente, como no póquer, apenas declarar que se tem cartas fortes nem sempre intimida a mesa [...] Reivindicou ele o direito de começar a comprar obrigações dos Estados, se os mercados não se comportarem com correção, emprestando dinheiro à Espanha e à Itália a taxas mais baixas? [...] Há uma razão para a compra de títulos pelo BCE ter estado congelada durante meses: é que tudo o que pareça um financiamento de favorecimento de Estados soberanos tende a ser rejeitado pela Alemanha, entre outros. [...] Na ausência de esclarecimentos, são possíveis interpretações pessimistas das suas declarações. Por exemplo: de que os formuladores de políticas da Zona Euro estão simplesmente a tentar acalmar os mercados durante o verão, para ganharem tempo para prepararem um plano de intervenção integral em Espanha.

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