O acordo de Bruxelas é na realidade fruto de um consenso entre a Alemanha e o FMI. Esteve longe de ser simples ou fácil. Pelo contrário, esta reunião de mais de 12 horas quase terminou em naufrágio, como afirmaram diversas fontes.
Convém realçar aqui, para todos os que acreditam que a solução era previsível, assim como o pagamento de tranches e a reestruturação da nossa dívida, que sem a aprovação das medidas de austeridade [no início de novembro] o país não teria recebido nada e que a Grécia teria sido colocada numa situação ainda mais difícil. Por outro lado, é preciso salientar que os nossos parceiros poderiam ter encontrado soluções mais dinâmicas para a nossa dívida.
Neste contexto, a solução escolhida, a combinação de ferramentas, toda esta composição para evitar uma escolha clara da redução direta das dívidas, não é a melhor. E é algo visível, tanto no sentimento de suspeita em relação à política grega, como na influência da ética protestante da política europeia.
Contabilistas sem coração
A Europa não foi flexível, não tentou ir além de uma abordagem miserabilista dos contabilistas sem coração, que não veem além do seu umbigo, não respeitou, como devia, os sacrifícios do povo grego.
Uma coisa é certa, os europeus foram mais gentis com a Grécia. No entanto, “mais vale pouco do que nada”, já dizia o provérbio popular. Sem este acordo, hoje o dia seria diferente. Podemos finalmente respirar. Apesar das restrições e das suscetibilidades, reconhece-se um progresso.
A ajuda externa não chega e não durará muito tempo. O que significa que, a partir de agora, a Grécia deverá, além de respeitar os seus compromissos, encontrar o seu caminho para o desenvolvimento.
Ao valorizar o contexto de estabilidade proporcionado por esta ajuda externa, todas as forças internas, políticas, o setor financeiro, social, devem mover o céu e a terra para que o país recupere finalmente.
Visto de Paris
Um compromisso inteligente
Após longas semanas de negociações, os países do Eurogrupo e o FMI, reunidos em Bruxelas a 26 de novembro, devem “satisfazer uma condição imperativa: reduzir o volume da dívida grega”, salienta Le Monde. “Se assim não for, no futuro, arriscam-se a mergulhar nas trevas de uma monumental falência que poderá comprometer toda a zona euro.” Mas as partes opõem-se quanto aos meios:
O FMI opta por uma solução radical – anular uma parte da dívida grega detida pelos credores públicos (bancos centrais), segundo o modelo que os bancos privados aceitaram aplicar desde 2012. O BCE e a Alemanha, esta última não tardará entrar em campanha eleitoral, não concordaram. Os 17 arranjaram, então, à noite, um pacote de medidas financeiras complexas – aquisição pela Grécia dos seus títulos, redução das taxas dos empréstimos bilaterais a Atenas, etc. – que resulta num alívio de €40 mil milhões. Existe o risco de ser preciso tomar outras medidas se a conjuntura o impuser para se conseguir os 124% [o objetivo da dívida grega relativo ao PIB do país, fixado pelo acordo até 2020]. Um trabalho de bricolagem inteligente, visto que é o objetivo que conta e condiciona a confiança dos mercados. Um trabalho de bricolagem salutar, visto que os gregos merecem tendo feito em sofrimento uma parte do caminho.