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Os europeus estão a perder a paciência com Israel

Embora a UE não tenha reconhecido formalmente o Estado da Palestina, vários países europeus reconheceram-no recentemente, mostrando assim que a simpatia pelo Governo israelita está a diminuir na Europa devido ao seu comportamento, estima o politólogo José Ignacio Torreblanca.

Publicado em 25 Novembro 2014 às 23:49

Primeiro o novo Governo sueco, anunciou no passado dia 3 de outubro que iria reconhecer oficialmente o Estado da Palestina. Algo que fez no dia 30 de outubro. Em seguida, foi a vez o Parlamento britânico: numa votação proposta pelos trabalhistas no dia 13 de outubro, com 274 deputados britânicos a votar a favor e 12 contra o reconhecimento da Palestina. Poucos dias mais tarde, no dia 16 de outubro, os socialistas espanhóis submeteram um proposta de resolução ao Parlamento para o reconhecimento do Estado palestiniano. [O Parlamento dinamarquês deverá discutir uma resolução nesse sentido no dia 11 de dezembro].
A decisão do Governo sueco não foi improvisada, nem surgiu do nada. A nova ministra dos Negócios Estrangeiros, Margot Wallström, foi comissária europeia e vice-presidente da Comissão Europeia entre 2004 e 2009. Conhecia, portanto, muito bem a posição da UE perante a questão e sabia quais seriam as consequências da decisão unilateral da Suécia. O mesmo podemos dizer do Parlamento britânico: além de ser um dos países que mais apoio mostrou a Israel, o Reino Unido é também um dos países mais sensíveis ao terrorismo jihadista.
O facto de Ed Milliband, o chefe da oposição de um país com um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, apelar a um reconhecimento unilateral mostra claramente que o clima europeu está a tornar-se menos favorável para o Governo israelita. A Espanha fornece ainda mais provas desta tendência: em 1991, acolheu a Conferência de paz israelo-palestiniana e, desde então, manteve-se ativa nos esforços de mediação da paz na região.
Israel sempre viveu sob uma ameaça existencial. Às vezes, a ameaça surgia da hostilidade dos seus vizinhos árabes, que chegavam a negar a sua existência, e Israel não hesitava em retaliar com guerra. Outra ameaça vinha do terrorismo do Hamas e das organizações afiliadas, que bombardearam Israel com ataques suicidas. Por fim, havia o presidente iraniano Mahmoud Ahmandinejad, que negava o Holocausto e ao mesmo tempo desenvolvia o seu programa militar nuclear.
Israel venceu os seus vizinhos militarmente, impediu de forma efetiva ataques terroristas no seu território e conseguiu unir a comunidade internacional (incluindo a China e a Rússia) para obrigar o Irão a suspender o seu programa de enriquecimento de urânio. No entanto, mesmo depois de ter conquistado estas vitórias, [[Israel não percebeu que a simpatia internacional pela sua causa estava a diminuir, enquanto o apoio aos palestinianos estava a aumentar]].
A última campanha militar israelita em Gaza, que causou um elevado número de vítimas civis, foi a gota de água para muitos Governos europeus. Estes Governos, e até mesmo o executivo norte-americano pró-israelita, cansaram-se de defender o indefensível. A ira contra Israel devido aos seus excessos em Gaza foi ainda reforçada pela retoma da construção de colónias e a confiscação de terras na Cisjordânia, um gesto que revela a impunidade do Governo de Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro parece convencido de que o laxismo dos europeus significa que sempre conseguirá impor a sua vontade.
Israel está a esquecer-se de uma coisa essencial: a perda de legitimidade internacional é tão perigosa, ou mais, do que todas as ameaças existenciais. [[Na mente de um elevado número de pessoas, Israel já ultrapassou os limites há muito tempo pela forma como trata os palestinianos]], seguindo regimes como o do apartheid na África do Sul. Até ao momento, estas pessoas mantiveram-se em silêncio, embora tenham exprimido críticas em privado. Agora, estas atitudes começam a ser exprimidas com o reconhecimento da Palestina. No seu falso sentimento de segurança, Israel não parece perceber a mudança de perceções da opinião pública europeia ou as suas consequências.
A verdade é que o tempo está a esgotar-se para Israel e, se continuar neste caminho, acabará por ser isolado do plano internacional, como um país pária. O reconhecimento unilateral do Estado palestiniano por alguns países da UE não deverá ser decisivo. Os países que anteriormente pertenceram ao Pacto de Varsóvia, como a Bulgária, a República Checa, a Hungria, a Polónia e a Roménia, bem como Malta, o Chipre ou a Islândia, já reconheceram o Estado palestiniano sem que existissem quaisquer consequências para Israel. No entanto, a tendência do reconhecimento da Palestina enquanto Estado, poderá indicar o empobrecimento de um ativo estratégico no arsenal israelita: a legitimidade internacional.

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