Populismo

Publicado em 6 Outubro 2010 às 10:11

Entre os debates que marcaram a quarta edição do festival da Internazionale, que teve lugar no passado fim de semana na cidade italiana de Ferrare, houve um consagrado aos "vencedores da crise" na Europa. Durante a discussão, um dos intervenientes, conselheiro especial da Comissão Europeia, elaborou a lista das iniciativas da UE para este Ano Europeu de Luta contra a Pobreza - que se transforma, para cúmulo da ironia, em 2010, no annus horribilis para a economia do continente. Ao que uma economista italiana a viver em Londres lhe respondeu que as instituições europeias só servem para produzir "palavras, palavras, palavras", que nunca são seguidas de atos, afirmação acolhida por um dilúvio de aplausos. Ouviu-se mesmo alguém gritar "basta!".

A desconfiança no que diz respeito à política tradicional e às instituições, que aumenta ao mesmo ritmo da degradação das condições de vida dos europeus devido à crise económica e às medidas de austeridade, é qualificada pela maior parte dos comentaristas como "populismo" e "antipolítica", uma armadilha na qual caem as franjas menos instruídas da população, vítimas da ignorância e da instrumentalização. O facto de uma audiência formada por pessoas claramente mais instruídas que a média manifestar o mesmo tipo de sentimentos constitui um sinal que deveria fazer refletir.

De acordo com a definição de Daniele Albertazzi e Duncan McDonnell, o populismo é "a ideologia que opõe um povo virtuoso a uma série de elites que o privam dos seus direitos, valores, prosperidade e voz". Após a crise económica, que perturbou a vida de milhões de europeus mas não a das elites que contribuíram para a desencadear, esta imagem assemelha-se de forma inquietante à realidade. É o caso da Irlanda, onde salvar o banco Anglo Irish custará um quinto da riqueza produzida num ano pelos seus habitantes.

Como Alain Touraine assinalou recentemente, o aumento das desigualdades constitui atualmente a ameaça mais séria à estabilidade e à coesão da UE e dos seus membros. Os partidos populistas, que crescem por todo o continente, dão uma má resposta. Mas a questão que levantam não pode ser descartada ao mesmo tempo que as suas bastante discutíveis ideias.

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