Um erro que só afasta mais Israel da Europa

O assalto lançado pelo Exército israelita contra a "Flotilha da Liberdade" – que transportava ajuda para Gaza e militantes pró-palestinianos – teve por resultado a morte de 19 passageiros que seguiam a bordo do navio turco Mavi Marmara e suscitou uma reacção de indignação da imprensa europeia. Esta apela à intervenção da comunidade internacional e da UE junto de Israel e preocupa-se com as consequências da escalada da tensão entre Israel e a Turquia.

Publicado em 1 Junho 2010 às 15:27
Judeus ortodoxos olham para o navio turco "Mavi Marmara", ao largo do porto de Ashdod (Israel).

"Os Governos, a ONU e a União Europeia devem reagir com firmeza", clama o L'Humanité. Este diário francês pede à UE que "suspenda de imediato o acordo de associação" com Israele aos Estados Unidos que "ponham termo às vendas de armas"ao Estado hebraico.

Na Alemanha, o Die Tageszeitung sugere que se façam depender todos os fornecimentos de armas do fim do bloqueio a Gaza e do fim da construção de colonatos judaicos na Cisjordânia.

O diário flamengo De Morgen lamenta "a atitude muito positiva da UE relativamente à recente adesão de Israel à OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico)".

Nas colunas do De Standaard (outro diário flamengo), o presidente da ONG belga 11.11.11 pede ao Governo de Bruxelas que "assuma uma posição clara, em vésperas da presidência belga da União Europeia". E manifesta o desejo de que "a UE inicie um debate sobre o estatuto especial de Israel" junto da Europa. "Será sensato deixar que esse país integre, em breve, a Europol, o serviço europeu de manutenção da ordem?", interroga-se, sublinhando em seguida: "Se não agir de uma maneira mais firme e não puser travões, a UE estará a dar carta branca a Israel para as suas violações do direito internacional."

"Não é novidade que o Governo israelita ignora o direito internacional", atalha o Die Tageszeitung. Este diário alemão recorda que, "quando matou [um quadro do Hamas palestiniano] no Dubai, no começo do ano, a Mossad usou passaportes europeus falsos. Londres e Paris sofreram essa afronta – que não causou problemas ao Governo de Israel".

No Independent, o jornalista especializado em questões do Médio Oriente, Robert Fisk, compara os políticos de hoje com os do período do pós-guerra e pergunta: "Irão a Guerra de Gaza de 2008-2009 (1.300 mortos), a Guerra do Líbano de 2006 (1.006 mortos), todas as outras guerras e, agora, as mortes de ontem significar que o mundo vai deixar de aceitar o poder de Israel? Não esperem muito por isso." Acusando os Estados Unidos e outros membros da comunidade internacional de "cobardia", este repórter veterano sublinha que, em 1948, "os nossos políticos – americanos e britânicos – organizaram uma ponte aérea para Berlim. A população faminta (os nossos inimigos apenas três anos antes) estava rodeada por um exército brutal". "Naqueles tempos", argumenta, "os nossos políticos tomavam decisões."

A flotilha de Gaza era integrada por pessoas, "europeus, americanos, sobreviventes do Holocausto – sim, pelo amor de Deus, pessoas que sobreviveram aos nazis – que tinham decidido ir a Gaza, porque os seus políticos e os seus estadistas tinham falhado". "Como foi que chegámos a este ponto? Talvez porque todos nos fomos habituando a ver os israelitas matar árabes, talvez os israelitas se tenham habituado a matar árabes. Agora, matam turcos. Ou europeus. Alguma coisa mudou no Médio Oriente, nas últimas 24 horas – e (dada a sua espantosa resposta política estúpida à chacina) os israelitas não parecem ter compreendido o que aconteceu. O mundo está cansado destas atrocidades. Só os políticos mantêm o silêncio."

A reacção lenta da União Europeia

A União Europeia não demorou demasiado tempo a reagir. No entanto, como salienta o El País, "ainda assim, os embaixadores da UE precisaram de mais de quatro horas para elaborarem um comunicado", em que condenam "a operação militar israelita em águas internacionais". A UE pede às autoridades israelitas a realização de "um inquérito imediato, completo e imparcial", para esclarecimento do que se passou. Este diário espanhol explica que, por outro lado, que os Vinte Sete estavam divididos quanto ao comunicado, que alguns exigiam a anulação do acordo de associação com Israel e que o texto representa o "consenso" entre aqueles que pretendiam uma "condenação mais firme" de Israel e aqueles que queriam esperar, até terem "mais elementos para julgar".

A UE pediu igualmente a "abertura imediata, permanente e sem condições dos check points que impedem o encaminhamento da ajuda humanitária para Gaza e o trânsito de bens e de pessoas de e para a Faixa".

"A política persistente de bloqueio é inaceitável e contraproducente", recordava ainda Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Catherine Ashton, "em sintonia com as capitais ocidentais, que denunciam esta situação, que se mantém desde que o movimento islamita tomou o poder, pela força, no território", refere o Libération.

Por seu turno, o La Vanguardia salienta que o comunicado "vai arrefecer as relações entre a Europa e o Governo de Benjamin Netanyahu", porque inclui a palavra "condena", um "verbo tabu" nas relações entre a UE e o Estado hebraico.

Reacção em Israel

Em Israel, a condenação europeia caiu bastante mal. "Aquilo que se passou a bordo do Mavi Marmara é trágico mas não justifica a reacção internacional", afirma Jerusalem Post. Este diário israelita explica que "a Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros pediu o levantamento do bloqueio a Gaza, numa antecipação da pressão que vai ser exercida sobre Israel, nos próximos dias, porque a UE deverá convocar uma reunião de emergência para discutir as consequências do incidente do Mavi Marmara".

Por seu turno, o Ha’aretz (outro diário israelita) considera que "é razoável pensar que a Europa e os Estados Unidos não poderão limitar-se a deixar que Israel saia desta situação com uma mera condenação".

A Turquia entre dois fogos

"A política israelita está a radicalizar-se e já não sente a necessidade de ter em conta os seus aliados, amigos e mediadores", lamenta o Die Tageszeitung. "A Turquia é um dos raros países que podem desempenhar um papel de mediador produtivo no Médio Oriente. E Netanyahu manda disparar contra navios seus."

Para o La Stampa, a degradação das relações diplomáticas entre a Turquia e Israel após o assalto contra o Mavi Marmara "ultrapassa o contencioso bilateral e define sobretudo o lugar da Turquia no ‘campo ocidental’". Segundo este diário de Turim, "é praticamente certo que a Turquia não será aceite na Europa". Mas, pergunta o mesmo jornal italiano: "Por quanto tempo mais poderá manter-se na NATO?". Enquanto "a possibilidade da adesão da Turquia à UE se manteve actual, a perspectiva de uma dupla condição de membro – da UE e da NATO – contribuía para manter Ankara na órbita dos países europeus que faziam parte da Aliança Atlântica. Contudo, agora, que as suas hipóteses de aderir à UE se evaporam, as coisas complicam-se. Mantida à porta da Europa, a Turquia elaborou de facto a sua própria política para o Médio Oriente." Contudo, ao agir como um actor no Médio Oriente, a Turquia corre mais riscos de se ver envolvida nos conflitos por resolver na região do que correria "enquanto país europeu, membro da União (ou sério candidato a vir a sê-lo)".

"O traumatismo do distanciamento entre Israel e a Turquia concretizou-se hoje", escreve, pelo seu lado, o La Reppublica.

Segundo o diário turco Zaman, para Israel, "os danos não se limitam às suas relações com a Turquia". Os passageiros e os navios deste "comboio de ajuda eram originários de vários países e incluíam membros do Parlamento Europeu e um sobrevivente do Holocausto", adianta o Zaman, que salienta: "A UE e vários países criticaram severamente Israel por este ataque naval."

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