A Europa precisa da sua Super-Mãe

Angela Merkel não terá a tarefa facilitada. No Conselho Europeu de 28 de outubro, a sua vontade de punir os Estados deficitários será combatida pela maior parte dos seus homólogos. Este papel de mãe rígida é, no entanto, necessário, assegura o Süddeutsche Zeitung.

Publicado em 27 Outubro 2010 às 14:38

É sempre bom prestar atenção ao que diz Angela Merkel. Os seus adversários a nível nacional já frequentemente tiveram a experiência e a lição não é menos válida para a Europa. A chanceler alemã pensa realmente o que diz.

Assim, quando anunciou, na primavera passada, logo a seguir ao plano de salvação provocado pelo pânico com a crise grega e do euro, que nunca mais poderia deixar-se repetir esse episódio e apelou a uma revisão dos tratados europeus, não eram palavras à toa.

Agora, Angela Merkel conseguiu a adesão do Presidente francês ao seu projeto. Ainda que o resto da Europa se ponha aos gritos, a chanceler vai conseguir essa revisão, porque não há alternativa.

Parece cada vez mais inevitável e não há dúvida de que os deputados europeus e os ministros dos Negócios Estrangeiros não tardarão a dar-se conta disso. As garantias financeiras – instauradas pelos Estados da zona euro para proteger a moeda única – expiram em 2013 e a Alemanha não participará na próxima edição, nem na institucionalização do plano de salvação, quanto mais não seja em nome de princípios constitucionais.

Nessa altura, se não for antes, os mercados financeiros acabarão por acossar os países sobre-endividados do Sul da Europa. É, pois, necessário instaurar um mecanismo que permita uma redução disciplinada da dívida e, sobretudo, fazer participar os credores, ou seja os especuladores, nos prejuízos.

Alemanha, o ímã da Europa

Resta saber se este mecanismo passa pela retirada do direito de voto a certos Estados-membros [no Conselho Europeu], o que seria uma humilhação, se houver necessidade da bênção de um referendo – como para qualquer revisão dos tratados europeus – ou se existem outros meios.

Angela Merkel sabe que vale mais não testar os franceses ou os irlandeses num referendo sobre a Europa. Isso poderia igualmente correr mal na Alemanha.

Estes argumentos são difíceis de contestar. Mas e o estilo político? É fundada a perceção da maioria dos Estados europeus, também ela difícil de contestar, segundo a qual o diretório franco-alemão deu um novo golpe? Ou a Alemanha comporta-se como quase soberana da Europa, campeã das exportações e colosso de um crescimento demasiado potente no centro do continente?

As reações do governo luxemburguês e do Parlamento Europeu mostram que a chanceler caiu na armadilha da hegemonia, apesar de todos os seus esforços para o evitar. A situação económica da Europa é perigosa.

Não se trata de uma oposição entre Leste e Oeste ou entre Norte e Sul. Trata-se do centro, que se afasta cada vez mais da periferia. Trata-se da Alemanha que age como um ímã, em detrimento dos seus vizinhos. Quando, para além da sua irresistível força económica, a Alemanha se põe a dar lições políticas, a revolta cresce.

Tão direta nas palavras como nos atos

O antigo chanceler Helmut Kohl dizia frequentemente que se inclinava sempre duas vezes diante da bandeira francesa. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Joschka Fischer filosofava a propósito da dialética europeia: a Alemanha devia ter as rédeas da Europa, sem que ninguém se apercebesse disso.

E Angela Merkel? É tão direta nas palavras como nos atos. O que é difícil de aceitar pelos Estados da periferia, que sentem duplamente a sua fraqueza: a potência económica alemã é incontornável e é em Berlim que acabarão sempre por ser fixadas as regras do jogo.

Angela Merkel não deve apenas falar, deve também ouvir. É possível opor-se-lhe duas vezes em menos de seis meses e levar a melhor. À terceira, tem-se aborrecimentos.

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