A ilha dos espiões

Por causa da sua situação estratégica, Chipre é desde há muito tempo um importante local de espionagem. É a partir dali que, atualmente, agentes britânicos e americanos, disfarçados de turistas, intercetam as comunicações entre o Médio Oriente e a Europa. Uma investigação baseada nos documentos de Edward Snowden.

Publicado em 5 Novembro 2013 às 17:38

Para dar cumprimento ao regulamento pelo qual se regem, alguns chegam de calções amarelos, outros de boné na cabeça. É preciso não despertar suspeitas. Ninguém pode ficar a saber que os norte-americanos se dedicam à espionagem em Chipre – e, ainda por cima, a partir de uma base militar britânica. Por isso, os agentes norte-americanos são obrigados a disfarçar-se de turistas, antes de se dirigirem a Agios Nikolaos – onde se situa um dos principais postos de escuta dos serviços de informação britânicos no domínio das comunicações, o Government Communications Headquarters (GCHQ). A base militar esconde-se por trás dessa “estação estrangeira”, que tem o nome de código de “Sounder” nos documentos divulgados pelo antigo agente da NSA, Edward Snowden. É isso que indica a investigação jornalística realizada pelo diário grego Ta Nea, pela cadeia de televisão [grega] Alpha TV, pelo semanário italiano L’Espresso e pelo Süddeutsche Zeitung.

O posto de escuta situa-se na zona Oriental de Chipre, uma região pobre, perto da Linha Verde que separa a República de Chipre da parte turca da ilha. As imagens aéreas mostram alguns edifícios, antenas parabólicas, outras antenas. Em redor, a paisagem é árida e deserta. A base militar fica a cinco quilómetros da praia e da localidade mais próxima, onde as pessoas poderiam interrogar-se sobre a presença de estrangeiros disfarçados. A mais valia do local reside na sua tranquilidade. O GCHQ e a NSA não espiam o mundo apenas a partir dos seus centros mais conhecidos no Reino Unido e nos Estados Unidos, mas também a partir de Chipre.

Cem quilómetros separam Chipre da Síria

A ilha funcionou como base central da espionagem britânica no Médio Oriente, desde finais dos anos de 1940. A situação no Sinai, no Iraque e na Síria é vigiada por espiões instalados em Chipre. A posição estratégica da ilha é ideal: fica apenas a 100 quilómetros da Síria e a não muito mais dos pontos quentes de Israel e do Líbano. Entretanto, a ilha tornou-se também um nó importante da vigilância da Internet e das telecomunicações do Médio Oriente e do Norte de África: passam por ela 14 cabos submarinos. Quem telefonar de Beirute para Berlim ou quem mandar uma mensagem de correio eletrónico para Telavive, tem fortes possibilidades de os seus dados passarem primeiro por Chipre, através de um cabo de fibra ótica. É sabido, pelo menos depois das revelações de Edward Snowden, que [[a interceção dessas linhas faz parte da rotina dos serviços secretos britânicos]].

O GCHQ pode tirar partido da herança colonial do Reino Unido: mesmo depois da independência de Chipre, nos anos de 1960, a coroa britânica manteve duas bases militares na ilha. Ao contrário das instalações militares tradicionais, essas bases, designadas como “Sovereign Base Areas”, são consideradas como verdadeiros territórios ultramarinos. É numa delas que se encontra o posto de escuta de Agios Nikolaos.

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Os espiões britânicos podem igualmente contar com a ajuda preciosa da empresa pública cipriota Cyprus Telecommunications Authority (CYTA), que coexplora um grande número dos cabos submarinos. Esta empresa de telecomunicações tem a obrigação contratual de cooperar com os britânicos. O que significa que – tal como muitas empresas britânicas e norte-americanas – é obrigada a colaborar nessas interceções e a satisfazer a sede de dados dos serviços secretos britânicos.

[[“Mastering the Internet”, dominar a Internet, constitui o objetivo confesso dos espiões de Sua Majestade]]. A cada segundo que passa, os agentes britânicos intercetam centenas de gigabytes: correio eletrónico, telefonemas, bases de dados. E, manifestamente, é a partir de Chipre que operam também os agentes que têm a seu cargo dossiês sensíveis: por exemplo, aqueles que espiam Israel – um país que, sob o nome de código de “Ruffle”, colabora com os norte-americanos e com os britânicos e que troca informações com eles. Terá sido igualmente a partir de Chipre que alguns agentes terão conseguido aceder à rede Tor, que é tida como uma rede segura. Num documento datado de 2012, esses agentes são louvados por serem “pessoas devotadas”, que têm no seu ativo muitas “missões difíceis”.

A NSA destaca os seus próprios agentes

Apesar de ser oficialmente uma base britânica, Agios Nikolaos é na realidade um projeto comum anglo-americano. Por várias vezes, os britânicos estiveram quase a fechar o posto de escuta; era preciso reduzir a importância do local. De todas essas vezes, os norte-americanos acabaram por vir em seu socorro, pois não queriam de modo algum perder esta base de importância estratégica. E não olharam a despesas. Hoje, a National Security Agency (NSA) paga metade das despesas de funcionamento. No GCHQ, a palavra de ordem é que a base deve continuar a funcionar a qualquer preço, para serem mantidas “relações sãs com os clientes norte-americanos”.

O primeiro desses clientes norte-americanos, a NSA, há muito que destaca os seus próprios agentes para Chipre. Mas, como isso é contrário aos termos do convénio assinado pelos Governos britânico e cipriota, os espiões norte-americanos têm de se apresentar incógnitos. Segundo o regulamento interno da NSA, têm de se fazer passar por turistas, por exemplo por excursionistas europeus – e, em caso algum, por “americanos típicos”.

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