Ancara olha para o Oriente

No seu relatório anual sobre a adesão da Turquia, a UE incentiva Ancara a prosseguir o caminho das reformas e da democratização. Mas, nota o editorialista Erdal Safak no diário turco Sabah, a vocação da Turquia é pelo menos tão asiática como europeia.

Publicado em 19 Outubro 2009 às 17:25

O relatório anual sobre o avanço da adesão da Turquia à União Europeia é considerado uma espécie de "boletim clínico" em que a Comissão Europeia avalia os desempenhos realizados pela Turquia nos últimos anos. Pela primeira vez, lêmo-lo sem entusiasmo nenhum. É verdade que estávamos no Cazaquistão, longe da Turquia e ainda mais de Bruxelas. Mas a falta de interesse em relação aos anos anteriores não foi apenas geográfico.

Claro que o ambiente em que nos encontrávamos e o dinamismo que se vivia à nossa volta influenciou a nossa percepção. Com efeito, no Cazaquistão, o relatório de 2009 não interessava a absolutamente ninguém. Para dizer francamente, todos se estavam nas tintas. Mal começávamos a aflorar a sua importância, recebíamos logo como resposta: "Esqueçam a Europa e virem-se antes para a Ásia!" Alguns, mais corteses ou mais diplomáticos, diziam: "Claro que era pena abandonarem um tão longo caminho para a Europa. No entanto, escrevam algures num canto do vosso espírito que um dia se darão conta de que é sobretudo aqui que poderão realizar os vossos verdadeiros objectivos".

Cazaquistão, em breve uma nova Noruega

É realmente uma evidência que o futuro da Turquia, mas também o da Europa, se jogará em grande parte na Ásia Central. Até o "pequeno Napoleão” da Europa, que não suporta a menor crítica – o Presidente francês Nicolas Sarkozy –, se deslocou a Astana no início de Outubro, adoptando para a circunstância o perfil mais humilde que se possa imaginar. É que o subsolo do Cazaquistão abunda em petróleo, gás natural e urânio. Em pouco tempo, esta região tornar-se-á uma nova Noruega, um novo Canadá, uma Austrália, e suscitará muitas cobiças. A imensidão deste país – quatro vezes a Turquia, mas povoado por apenas trinta milhões de habitantes – oferece inúmeras possibilidades. A Turquia já reservou, aliás, algumas parcelas deste território.

Nestas condições, os comentários a propósito deste relatório de situação, que, em substância, nos dizem que "o tom deste documento é mais comedido do que o dos anos anteriores" e que "as esperas e as exigências da União Europeia no que diz respeito à Turquia estão muito mais razoáveis", fazem-nos francamente sorrir. Não vamos agora esquecer e dizer que pouco nos importa, já que agora temos a nossa "Eurásia". Claro que a União Europeia permanece "a nossa via". Mas não é a nossa "única via". Dito isto, felicitações por este relatório, apesar de tudo!

Alargamento

Chipre, calcanhar de Aquiles da Turquia

No seu relatório anual sobre a eventual adesão da Turquia à UE, publicado em 14 de Outubro, a Comissão Europeia insiste numa definição rápida da questão de Chipre, [escreve Robert Ellis no The Guardian](http:// http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2009/oct/18/turkey-cyprus-europe-membership). “Com a queda do muro de Berlim e a acalmia na Irlanda do Norte”, refere, “Chipre é o mais longo conflito europeu por resolver”. Desde a invasão turca de 1975, as tentativas das Nações Unidas para reunificar a ilha, dividida entre as comunidades turca e grega, acabaram por ser um cemitério político para quatro secretários-gerais e incontáveis enviados.

Sendo a parte grega da ilha já membro da UE, é ainda obscuro se o líder dos cipriotas turcos, Mehmet Ali Talat, se conseguirá entender com o seu homólogo grego, Demetris Christofias, “embora haja um acordo geral dos dois líderes sobre os parâmetros para a negociação – uma federação de dois Estados constitutivos, com uma única soberania”. Contudo os obstáculos permanecem, nomeadamente “a insistência turca em manter uma presença militar na ilha e a política turca de colonização com turcos do continente. Na verdade, a população cipriota turca indígena que ali permanece – avaliada em 89 mil pessoas, englobada nos 260 mil habitantes da área cipriota turca – queixa-se de opressão cultural pela Turquia.”

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