Atenção aos “Men in Black”

Publicado em 5 Junho 2012 às 11:13

"A célebre prima de risco [diferença nos juros pagos pelos títulos dos Estados espanhol e alemão] tem uns parentes em Bruxelas que vivem com um mala feita atrás da porta. Se o risco aumenta muito em algum país, devido às fricções financeiras, pegam na bagagem, apanham um avião e vão resgatá-lo", escreve o editorialista Ignacio Camacho no ABC, a propósito dos funcionários que a Comissão Europeia envia para países que, como a Irlanda, a Grécia ou Portugal, estão sujeitos a um plano de salvamento. Uma hipótese rejeitada, até ao momento, pelo Governo de Madrid, enquanto o país enfrenta uma severa crise bancária. Para Camacho,

chamam-lhe resgate mas, na realidade, trata-se de um sequestro; apoderam-se da soberania da nação afetada e impõem-lhe um tratamento de choque, até o ditoso prémio diminuir. São os homens de negro, Men in Black, os enviados itinerantes da temida troika comunitária, os comissários mandados por Merkel, para imporem a sua hermética disciplina orçamental. Uma brigada impiedosa, cuja presença semeia o pânico nos governos, quando as coisas ficam como estão a ficar em Espanha.

Talvez por essa razão, a possibilidade de um resgate – nunca se trata de uma opção, embora formalmente o pareça – seja completamente desaconselhável. Em teoria, poderia ser uma solução de emergência razoável, em caso de bloqueio: pessoas não envolvidas nos conflitos de interesses nacionais, capazes de aplicar medidas incisivas, sem compromissos políticos ou eleitorais. Pessoas que não vacilariam perante as bagatelas das nossas autonomias, nem se deixariam afetar pela filiação dos gestores das caixas falidas. Frios profissionais de limpeza como Winston Wolf no Pulp Fiction. Talvez o que é necessário num país em colapso, devido ao fracasso institucional e a um emaranhado de enredos acumulados. Mas o seu manual de atuação é implacável e gélido, avesso a matizes, e segue uma lógica meramente contabilística. Começam pelas pensões e pelo subsídio de desemprego, avançam para os impostos e os salários públicos e acabam por vender todo o património suscetível de ser comprado.

Quando terminam a missão, deixam a economia para as sobras e a política devastada e vão-se embora de braço dado com o prémio, sacudindo o pó dos sapatos. Talvez possam sanear um país que se afundou, mas, se existir qualquer possibilidade de recuperação, enterram-na debaixo dos escombros. […] Se os homens de negro aterrarem em Madrid, a Espanha ficará durante anos no fundo de um poço de desconfiança e tudo o que foi feito até agora não serviria de nada. O lema de Rajoy é aguentar, ganhar tempo, agarrarmo-nos ao mastro, para ver se a tempestade amaina; a duas semanas das cruciais eleições na Grécia, não faz sentido rendermo-nos, por mais grave que o panorama se apresente. É uma questão de resistir à pressão: a incógnita reside em quanto tempo será possível passar assim, até os Men in Black tirarem as tesouras de podar da sua sinistra bagagem.

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