Ciganos: últimos a contratar, primeiros a despedir

A crise económica não atinge todas as comunidades da mesma forma. Os ciganos pagam uma factura mais peasada num momento em que se acumulam sinais de histilidade e violência contra eles

Publicado em 10 Agosto 2009 às 16:16
Jovens romenos em Lipany, Eslováquia (AFP).

Dionyz Sahi escapou ao desemprego e ao pior subúrbio de Kosice, a segunda cidade mais importante da Eslováquia, graças ao programa de contratação de membros da minoria cigana da US Steel. Mas a porta de saída que o afastou da pobreza encontra-se actualmente fechada devido à crise económica mundial.

"Deixámos de contratar e agora estamos a reduzir os efectivoso", afirma George Babcoke, presidente da US Steel Kosice, uma filial do grupo norte-americano que é o maior investidor na zona leste da Eslováquia. A depressão económica atingiu com particular violência cerca de 8 milhões de ciganos na Europa, geralmente considerados a população economicamente mais vulnerável do continente. Há muito que os ciganos têm dificuldade em arranjar emprego na economia formal e contam-se entre os primeiros a ficar desempregados em períodos de crise. "Os ciganos são os últimos a ser contratados e os primeiros a ser despedidos", sublinha Rob Kushen, director-geral de Centro Europeu pelos Direitos do Povo Cigano (ERRC), à Budapest.

Salário cai de 650 para 130 euros

Este ano, a fábrica vizinha da Whirlpool viu-se obrigada a despedir trabalhadores devido à quebra repentina de encomendas de máquinas de lavar. Alguns dos seus desempregados vivem nesta aldeia. Mirko é cigano e diz que o seu rendimento mensal baixou de 650 para 130 euros – o montante correspondente ao subsídio social do Estado. "Agora comemos de uma maneira diferente. Carne e fruta pertencem ao passado", afirma. "As pessoas invejavam-me quando eu tinha emprego, mas agora nem temos dinheiro para comprar roupa em segunda mão."

Um outro antigo trabalhador da Whirlpool diz que tem corrido o país à procura de emprego. "Candidatei-me a um emprego em Bratislava, mas disseram-me: 'Se é cigano, escusa de vir’", afirma. À medida que a crise se instala, os ciganos têm mais dificuldade em arranjar um emprego porque os empregadores são mais selectivos do que eram há um ou dois anos, em pleno florescimento económico. Na Hungria, onde a crise económica veio exacerbar o problema da desindustrialização na zona pobre do ordeste do país, o desemprego passou a ser um problema particularmente grave para os ciganos. Fortemente atingidos pela pior recessão desde a transição do comunismo para a economia de mercado, os húngaros voltam-se cada vez mais para o Jobbik, um partido da extrema-direita que culpa os ciganos pelos crescentes índices de criminalidade. Nestes últimos meses, registaram-se numerosos ataques a acampamentos ciganos e inclusivamente vários homicídios.

Ottawa impõe vistos

No ano passado, a Roménia, com uma numerosa, mas bem integrada, população cigana, registou menos conflitos violentos do que a Hungria. Poderá no entanto ter de enfrentar uma grave crise social se o fluxo de romenos de regresso ao país, oriundos de Itália e de Espanha, começar a engrossar à medida que situação da indústria da construção na Europa se for deteriorando.

Na República Checa, a situação criada à volta dos ciganos é de tal forma tensa que há centenas de pedidos de estatuto de refugiado ao Canadá, o que levou Otava a impor de novo a obrigatoriedade de vistos a turistas checos. Visto que a região luta para ultrapassar uma recessão económica particularmente grave, muito tempo irá ser preciso para que qualquer um dos compatriotas de Dionyz Sahi seja capaz de, como ele, escapar à pobreza. O emprego que Sahi arranjou em 2003 ajudou-o a escapar ao Lunik IX, um sinistro bairro de ciganos nos subúrbios de Kosice. "Nunca tinha tido um emprego", afirma. "Quando recebi o primeiro ordenado e levei os meus filhos a uma loja de brinquedos compreendi a felicidade de ter um emprego."

"Há vários indícios de que a crise económica afectou os ciganos de uma forma desproporcionada, mas os níveis de emprego foram sempre baixos nesta franja da população." O efeito da crise é bem visível em Velka Lomnica, uma aldeia no norte da Eslováquia. Naquelas planícies verdejantes, recortadas por entre as montanhas Tatra com os seus cumes cobertos de neve, vivem cerca de mil ciganos abaixo do limiar da pobreza. As mulheres debruçam-se pelos buracos sem janelas de um bloco de apartamentos de três andares a cair de velho. As pessoas vivem, na sua maioria, em barracas construídas por si, nada indicadas para os rigorosos invernos eslovacos.

ESLOVÁQUIA

Duche frio acalma anti-ciganos

SME 06-08-09A polícia interveio em força para dispersar uma manifestação contra os ciganos realizada em Šarišské Michalany. Mais de duzentos extremistas de direita reuniram-se no passado dia 8 de Agosto nesta pequena cidade do centro do país para se manifestarem contra o "terror cigano", representado por uma comunidade que ali se instalou. "Ciganos protegidos por canhões de água", anuncia na sua primeira página o SME. Segundo o jornal eslovaco, os extremistas perderam a batalha travada com a polícia, mas ganharam o apoio de uma parte dos habitantes da cidade.Nesse sentido, a manifestação veio ao encontro do que parece ser a opinião dominante entre os eslovacos:"Os ciganos não querem trabalhar, roubam e matam."Ao negligenciar uma questão delicada, os políticos eslovacos nada fazem no sentido de modificar pontos de vista como estes", considera o SME.

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