Crise grega vai rapidamente expor Hollande

Está para se ver se Hollande vai manter a sua postura antiausteridade e fica ao lado da Grécia ou se vai voltar-se para a política alemã. Não importa quantas alterações ao acordo orçamental da UE consiga negociar, mais cedo ou mais tarde, a tempestade política na Grécia vai muito provavelmente pô-lo à prova.

Publicado em 8 Maio 2012 às 16:04

No domingo à noite, na França rural, o recém-eleito Presidente francês subiu ao palco e anunciou que iria liderar a batalha contra a austeridade na Europa. Do outro lado do continente, os votantes gregos estavam a pedir-lhe que mostrasse as cartas. Ao escolherem esmagadoramente partidos que querem ou repudiar ou renegociar o acordo de resgate grego, deixaram François Hollande num doloroso dilema. Vai defender o povo grego contra a austeridade? Ou vai ficar ao lado do Governo alemão e do Fundo Monetário Internacional, insistindo que o resgate grego não pode ser renegociado?

A escolha de Hollande será decisiva para a França e para a Europa. Potencialmente, o novo Presidente francês pode colocar-se na liderança dos rebeldes do sul da Europa. Não há dúvida de que os governos espanhol e italiano – ainda que nominalmente sejam de famílias políticas diferentes – têm aplaudido o socialista francês. Tal como os gregos, também eles querem, desesperadamente, ver desafiada a ortodoxia de austeridade alemã.

No entanto, um esforço francês para isolar a Alemanha dentro da UE seria uma alteração história da política externa francesa do pós-guerra – que foi construída em torno da ideia de que “a dupla franco-alemã” deve liderar a UE em conjunto. Aliar a França com o sul europeu também causaria danos na autoimagem do país como uma das mais fortes economias da Europa. A perceção de França nos mercados financeiros também pode piorar. Mais grave do que tudo o resto, um desentendimento aberto entre a França e a Alemanha poderia causar gravíssimos problemas à Europa, abrindo uma falha sísmica nas fundações da UE e da moeda única.

Sendo assim, a maior parte dos analistas defende que Hollande vai fazer alguns gestos que lhe salvarão a face perante Berlim, permitindo-lhe dizer que mudou a direção do debate na UE a favor do “crescimento”. Até mesmo antes de ser eleito, já os especialistas em Paris e Berlim esboçavam os contornos de um possível acordo.

Um putativo acordo Hollande-Merkel

Um putativo acordo Hollande-Merkel seria qualquer coisa como isto: Hollande, como ele próprio já deu a entender, modificará a sua exigência de renegociar o novo pacto orçamental da UE – o acordo que torna o equilíbrio orçamental juridicamente vinculativo. Por seu lado, a Alemanha concordará com um vagamente formulado novo pacto de crescimento, que possa caminhar lado a lado com o pacto orçamental. No mesmo sentido, rejeitará a pretensão de Hollande no que diz respeito às euro-obrigações – emissão comum de dívida da UE. Mas muito provavelmente concordará com os “project bonds” apoiados pela UE, projetos de financiamento de infraestruturas. Também poderá haver acordo quanto a um estímulo aos empréstimos do Banco Europeu de Investimento.

Este seria um típico acordo franco-germânico da UE que permitiria a todos os envolvidos saírem honrados – deixando o mundo exterior pouco afetado mas ligeiramente confuso. A nova erupção do vulcão político grego, no entanto, vem complicar muito este cenário. O problema grego é agora tão grave que não pode ser “consertado” através de algumas cláusulas inteligentemente elaboradas e acrescentadas a um tratado da UE. Exige decisões reais, barulhentas e perigosas. Especificamente, será a Grécia pressionada a continuar a fazer cortes orçamentais de milhões de euros, nos próximos meses, como é exigido pelo mais recente acordo de resgate? Se a Grécia se recusar a fazê-lo, o FMI já deixou claro que não autorizará a transferência da próxima prestação de ajuda àquele país. O que significa que o Governo grego ficará, por isso, sem dinheiro. A dolorosa gestão dos cortes de pensões e salários seria, então, substituída por algo muito mais doloroso. A saída forçada da Grécia da zona euro tornar-se-ia muito mais provável.

Os números resultantes das eleições gregas mostram que muito em breve esta difícil escolha deverá ser enfrentada. Os dois maiores partidos que defendem o resgate, a Nova Democracia e o Pasok, conseguiram apenas um terço dos votos. Lutam para conseguir formar um governo de coligação – e em breve a Grécia poderá ir de novo a eleições.

UE terá de fazer uma escolha fundamental

Além disso, também Antonis Samaras, o líder da Nova Democracia e ainda o mais provável próximo primeiro-ministro, defende alterações ao acordo grego. Samaras sabe que o facto de os dois partidos do centro estarem agora associados a um pacote de austeridade profundamente impopular, imposto por estrangeiros, é perigoso e faz com que os nacionalistas e os extremistas de esquerda sejam os únicos a lucrarem politicamente.

Samara pensa, especialmente, que os negócios gregos precisam de taxas de juros mais baixas. Mas este seu argumento não recebeu qualquer incentivo de Angela Merkel – com quem tem uma péssima relação. Ao defender este argumento enquanto primeiro-ministro, Samaras, vai posicionar-se como um rebelde razoável, que desafia as contraproducentes políticas de austeridade alemãs. O que fará dele um aliado natural de Hollande.

Na realidade, ao ter de escolher entre apoiar a Grécia ou apoiar a Alemanha, a França quase de certeza apoiará os alemães. Ainda que tal escolha mostre o vazio da retórica antiausteridade de Hollande. Alguns gestos em direção aos “project bonds” não serão nada, comparados com a visão da França ao lado do FMI e da Alemanha a impor mais cortes à Grécia, enquanto a economia do país se afunda e o desemprego aumenta.

A combinação do caos político na Grécia e da inflexibilidade do FMI sugere que, no próximo verão, a Grécia será atingida por uma nova crise. Nessa altura, a UE terá de fazer uma escolha fundamental. Continuará a ajudar a Grécia apesar da retirada do FMI? Ou vai recusar ajuda à Grécia – aceitando todos os riscos políticos e económicos decorrentes dessa escolha? Perante tal crise, é irrelevante a retórica vaga e entusiasmante de Hollande quanto a salvar a Europa da austeridade.

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