Estudantes detetores de mentiras

Os políticos, por vezes, mentem. Estudantes checos e eslovacos decidiram, portanto, passar a fazer uma verificação de factos e propor o seu trabalho aos órgãos de comunicação profissionais. O seu site Demagog.cz acaba de receber um prémio de jornalismo em Praga.

Publicado em 27 Maio 2013 às 13:22

No ano passado, pouco antes do Natal, no auge da campanha presidencial checa, o candidato Milos Zeman teve de explicar a origem dos fundos que financiaram os seus painéis publicitários e outras intervenções em suportes publicitários com que então inundou o país. Nos meios de comunicação, abundava a especulação sobre dinheiros provenientes da empresa petrolífera russa Lukoil. De um momento para o outro, o favorito nas sondagens ficou sob suspeita. “O que tenho simplesmente para lhes dizer”, afirmou num tom ponderado, na televisão, “é que a Lukoil publicou um comunicado oficial, no qual declara que nunca pagou nada, direta ou indiretamente.”

Milos Zeman fez esta afirmação, recorrendo, além do mais, a outra autoridade, valendo-se da posição oficial de uma empresa de primeiro plano. Isso não soou estranho ao moderador da emissão, mas não era garantido que realmente existisse tal documento. Em suma, a defesa de Zeman passou.

Nessa ocasião, em Brno, um grupo de estudantes acompanhava o programa pela televisão. Depois de receberem uma transcrição, imediatamente após o final da entrevista, iniciaram o seu trabalho de rotina. Um dos membros mais experientes da equipa identificou no discurso as afirmações factuais, ou seja as declarações que podem ser verificadas e controladas a partir de fontes disponíveis ao público. A afirmação da existência de uma declaração oficial da companhia Lukoil era naturalmente uma delas.

Verificação de declarações

A afirmação de Milos Zeman não passou no teste. Os alunos de Brno rotularam-na de “mentira”, o pior nível de avaliação da sua escala de classificação.

Foi na última campanha presidencial que a associação Demagog.cz alcançou o seu maior êxito até à data. Representou uma chamada de atenção para os meios de comunicação institucionalizados. Alguns [como o diário Hospodarské Noviny e a televisão pública] contrataram-nos para fazerem verificação de declarações de candidatos.

Para uma associação não-profissional de estudantes, que existe há apenas um ano na versão checa, é um feito notável. A sua missão é verificar a veracidade das declarações feitas por políticos, sobretudo em debates televisivos. O núcleo duro da Demagog.cz, que é financiada pelo Open Society Fund Praha e pelo programa Juventude em Ação da União Europeia, é formado por politólogos. A empresa Newton Media colabora com a transcrição das gravações dos debates.

Foram dois estudantes de Bratislava, Ondrej Lunter e Matej Hruska, que trouxeram o Projeto Demagog para a Universidade de Brno. Já não toleravam a indigência dos debates televisivos na Eslováquia. Então, os dois jovens desenvolveram – em 2010 – a versão eslovaca do projeto.

“Foi uma daquelas ideias de estudantes. Víamos os debates televisivos de domingo, que, na Eslováquia, são bastante mais fracos do que na República Checa. Apercebemo-nos de que os políticos os consideravam espaços de autopromoção, sem ninguém os contradizer”, recorda Matej Hruska. Foi ele quem teve a ideia de se inspirarem na América do Norte, onde a verificação dos factos funciona em pleno há cerca de dez anos.

Tudo mudou com Milos Zeman

Nos Estados Unidos, para onde estão voltados os olhos de todos os estudantes checos e eslovacos, essa verificação é feita a uma escala muito maior. O fenómeno surgiu em 2005, quando a Internet começou a funcionar a alta velocidade e o Google se impôs como uma evidência. Hoje, existem várias organizações semelhantes aos Demagog checo e eslovaco. Dezenas de jornalistas trabalham em alguns deles. A FactCheck.org, por exemplo, é liderada por um veterano da CNN, Jackson Brooks, e dispõe de um orçamento anual de quase um milhão de dólares [cerca de €770 mil].

Em Brno e Bratislava, tais condições dão para rir. Ambos os grupos são movidos pelo entusiasmo dos alunos e ao que parece, pelo menos por enquanto, isso basta-lhes. Conforme explica o especialista Jan Tvrdon, “a nossa faculdade é realmente um lugar muito especial. Muitas pessoas, aqui, atuam e envolvem-se em projetos. Não se preocupem, também não descuramos a diversão”. Mas, na prática, isso não significa que os resultados dos projetos norte-americanos e da Europa Central sejam muito diferentes.

Os alunos de Brno descrevem o ambiente [político] checo como “uma cena que se profissionalizou e em que pelo menos as elites aprenderam a utilizar os factos verdadeiros como lhes convém”. Tudo mudou com o surgimento de Milos Zeman. Durante a sua campanha eleitoral, de uma forma muito mais evidente do que os outros candidatos, divulgou informações falsas, que podiam induzir em erro ou que não eram verificáveis. Os Demagog explicam isso pelo facto de ele ter estado dez anos fora da política e ter voltado com os tiques de uma época em que não era possível utilizar o Google para tudo. No entanto, os alunos têm de enfrentar a realidade de que foi precisamente ele o candidato que, apesar de mentiras, ganhou as eleições.

Poucos dias depois desta entrevista, a equipa do Demagog.cz recebeu o Prémio de Jornalismo de 2013, na categoria de Inovação no jornalismo cidadão online.

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