Irá o populismo salvar a democracia liberal?

Publicado em 20 Outubro 2014 às 16:24

O populismo faz parte da democracia desde a época romana, escreve o cientista político Yascha Mounk em Foreign Affairs e o seu reaparecimento é natural após o “longo período de um espetacular crescimento económico” que durou desde o final da Segunda Guerra Mundial até ao final dos anos 70. Se a velha classe política explica fenómenos como a vitória dos partidos eurocéticos nas eleições de maio como resultado de uma crise financeira que irá esmorecer com a recuperação económica, Mounk vê as suas origens na “estagnação a longo prazo dos níveis de vida e fortes crises de identidade nacional”.

Os cidadãos das democracias ocidentais enfrentam o final da tendência que data da Revolução Industrial, em que cada geração tinha um nível de vida mais elevado do que a anterior, bem como uma instabilidade económica crescente e um futuro incerto, que os deixa “fortemente convencidos de que a classe política fracassou”. A agravar a sensação de insegurança estão “milhões de imigrantes” que, em vez de desfrutar das estadias temporárias que os Governos prometeram, “ganharam o direito de ficar nos seus países adotivos e começaram a exigir que fossem aceites como membros da nação de pleno direito”.

Neste contexto, os populistas beneficiam do facto de se auto-designarem como defensores da “maioria silenciosa”, “prometendo proteger o interesse dos “verdadeiros” membros da nação das minorias com as quais as elites políticas parecem estar em conluio”. Após um período de prosperidade económica no qual “a classe política da maioria das democracia ocidentais conseguiu empurrar os seus rivais populistas para as margens inócuas do discurso político”, o reaparecimento do populismo pode surgir como uma ameaça para a própria democracia.

Mas “nem todos os movimentos populistas têm de ser maus para a democracia”, revela Mounk, que defende que as democracias “devem dar voz às justas indignações que alimentam o populismo, convencendo ao mesmo tempo os eleitores de que as soluções simples oferecidas pelos populistas estão condenadas ao fracasso”. No plano económico, isto envolve mudanças políticas arriscadas,

especialmente no sul e na parte ocidental da Europa, os políticos teriam de tomar decisões muito pouco populares, incluindo o aumento da idade da reforma e a flexibilização dos regulamentos laborais. […] Mas uma nova geração de políticos ambiciosos, que inclui o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, está a começar a receber cada vez mais apoio para implementar duras reformas económicas, dando voz às frustrações populistas e mobilizando os eleitores relativamente ao objetivo de redistribuição.
O mais difícil para os líderes europeus é tranquilizar os cidadãos quanto à ameaça iminente da identidade nacional por parte da UE.

Um futuro promissor passaria por renunciar ao seu compromisso de longa data para uma “união cada vez mais próxima”, uma aspiração que facilitaria a vida aos populistas, que defendem que os burocratas da UE não descansarão até desmantelar os Estados-nação da Europa. Ao prometer que não ultrapassarão um determinado limite no processo de integração, os líderes europeus poderiam proteger-se das acusações de que não são favoráveis à soberania nacional e, ainda, proteger as maiores conquistas da UE, como a livre circulação de bens e pessoas.

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