Merkel pastoreia-nos para longe do abismo fiscal

As negociações de última hora em Washington, para evitar um défice orçamental, evidenciam que a visão de curto prazo está bem alicerçada na política dos Estados Unidos. Revelam também que, apesar da sua controversa gestão da crise do euro, a chanceler alemã é bastante sábia ao forçar a adoção de soluções de longo prazo.

Publicado em 3 Janeiro 2013 às 16:32

Citando uma frase que ficou famosa na boca do historiador norte-americano Robert Kagan, “Os americanos são de Marte e os europeus de Vénus” também quando se trata de lidar com questões de saúde fiscal de longo prazo.

O facto de os melhores políticos de Washington conseguirem apresentar, à beira do chamado “abismo fiscal”, um acordo despojado e minimalista patenteia a inexistência de um interesse genuíno em resolver o problema do défice orçamental norte-americano de longo prazo.

Não tem a ver com as diferenças partidárias nos EUA (embora isso seja muitas vezes invocado como um facto). Os nossos políticos, independentemente da cor política, não são sérios no que diz respeito à saúde fiscal da nação a longo prazo.

De que outra forma interpretar o facto de a única forma de os políticos de Washington terem sido persuadidos a aceitar uma muito modesta fatia de austeridade fiscal, com vista a garantir a situação a longo prazo, ter sido convencê-los – com artimanhas como o “abismo fiscal” – de que haveria muito mais medidas de austeridade se não estivessem dispostos a aceitar pelo menos uma dose mínima de intervenção orçamental neste momento?

Saltar por cima do abismo fiscal

Se o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o Congresso realmente quisessem consertar o problema do défice orçamental do país, teriam entusiasticamente saltado por cima do “abismo fiscal”, com cortes de gastos e aumentos de impostos obrigatórios, em vez de andarem eternamente a contorná-los.

É exatamente o oposto do que está a acontecer na Europa, onde a chanceler alemã, Angela Merkel, está a orientar uma dolorosa carga fiscal de curto prazo, tendo em vista resultados fiscais a longo prazo. Tanto os keynesianos como os desenvolvimentistas discordam, mas Merkel defende inflexivelmente que a Europa não pode voltar ao crescimento sustentável e prosperidade sem antes arrumar a sua casa fiscal – e utiliza criativamente o peso económico alemão para impor as regras alemãs que pretende para a Europa.

Essa – para além do facto de ter sido simultaneamente sábia e corajosa para abraçar o programa de Mario Draghi de compra de títulos, para estabilizar os mercados financeiros, enfrentando a oposição determinada do Bundesbank – é a razão pela qual considero que ela merece ser a personalidade europeia do ano.

Nota para os investidores: 2013 parece ser o ano em que os mercados começarão a perceber que é a “gente de Vénus” que está no caminho certo e os “marcianos” no caminho errado. São os norte-americanos que estão a arrastar a reforma fiscal pela ladeira abaixo e não os europeus.

Uma onda virtual de turbulência

Isso vai colocar a Europa em perigo, a par dos Estados Unidos. A incapacidade de Washington resolver a saúde fiscal dos EUA a longo prazo pode desencadear uma onda virtual de turbulência que atingirá toda a economia global. Vivemos num mundo interligado, em que a “gente de Vénus” pode sofrer graves consequências se a “gente de Marte” não cuidar dos seus negócios.

Um golpe no mercado acionista dos EUA poderia causar danos sérios tanto aos europeus como aos norte-americanos (sem falar dos asiáticos).

Parte da responsabilidade pelos problemas de saúde fiscal dos EUA repousa inequivocamente nos ombros da Reserva Federal dos Estados Unidos, cujas políticas de flexibilização quantitativa – intencionalmente ou não – tornaram mais fácil aos políticos norte-americanos colocar em risco a saúde fiscal da nação a longo prazo.

Para quê fazer reformas fiscais dolorosas para proteger a dívida soberana, quando a compra incondicional do banco central de títulos dos Estados Unidos faz esse papel tão bem? (O BCE está a exigir reformas, antes de gastar um euro que seja na compra de títulos de dívida).

O diretor da Reserva Federal, Ben Bernanke, terá, sem dúvida, relutância em admiti-lo mas as iniciativas de flexibilização quantitativa do seu departamento têm ajudado a deixar o balão da reforma fiscal dos Estados Unidos sem oxigénio.

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