O próspero negócio das pistolas de baixo custo

Perante o endurecimento das leis sobre o porte de armas, o tráfico de pistolas de alarme modificadas está a aumentar na Europa. Baratas, fáceis de modificar e com um rasto impossível de seguir, são cada vez mais utilizadas pelos criminosos.

Publicado em 19 Novembro 2010 às 15:33
Ekol Tuna, estrela do tráfico de pistolas de alarme.

Aos dez anos, Massimo Tanfoglio já embalava pistolas na fábrica do pai. Hoje, com 57 anos, é o diretor da fábrica de armas Fratelli Tanfoglio, em Gardone Val Trompia, no norte de Itália.

Ao percorrer as ruas da pequena cidade encontramos, por todo o lado, pequenas fábricas de armamento e anúncios em que figuram as palavras armi, fucili, cartucce ou guns. Há mais de 500 anos que Gardone (12 mil habitantes) vive da indústria do armamento, graças à associação do minério de ferro, da madeira e da energia hidroelétrica das suas montanhas. Nesta terra existem cerca de 80 empresas, que vão das pequenas oficinas familiares de espingardas de caça à célebre Beretta.

As pistolas de Tanfoglio, apreciadas pelos amantes do tiro desportivo, tornaram-se uma referência junto dos especialistas de armamento. Nos últimos anos, entre mil e quinhentas e duas mil pistolas Tanfoglio, modelo GT 28, foram usadas para cometer crimes na Holanda. Trata-se de uma pistola de alarme barata transformada em arma de fogo em oficinas clandestinas do norte de Portugal.

Um mercado em pleno crescimento

Os recentes tiroteios mortais [na Holanda] levantam a questão da facilidade da obtenção de armas e da sua proveniência. O sucesso das pistolas de ar ou pistolas de alarme, em toda a Europa, é preocupante. Têm muitas vantagens para um criminoso: são baratas, de venda livre em muitos países e a sua transformação é muito simples. Não sendo registadas, a polícia tem grande dificuldade em reconstruir-lhes o rasto. Quanto mais a lei se torna severa, mais aumenta o recurso às armas que não necessitam de ser registadas.

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Massimo Tanfoglio sabe que os criminosos fazem mau uso das suas pistolas de baixo preço (100 euros). Segundo a polícia holandesa, transformá-las é uma brincadeira de crianças: um fresador suficientemente hábil consegue furar a tampa colocada no final do canhão e substituí-la. “Polícias franceses e alemães vieram fazer-me perguntas sobre a nossa pistola de alarme”, conta Tanfoglio.

Sobretudo para não manchar a sua reputação, decidiu acabar com a produção da GT 28. Por intermédio do importador português de Tanfoglio, as pistolas de alarme eram enviadas, dentro da mais completa legalidade, para Portugal. Mas era aí que começava a zona sombria. Eram modificadas de forma ilegal em pequenas oficinas dos arredores de Valença do Minho, à beira do rio que marca a fronteira com a Espanha.

Em 2005, a polícia portuguesa pôs fim à atividade destas oficinas e, em 2006, a lei sobre o porte de armas foi reforçada. As pistolas de alarme e de ar são agora proibidas em Portugal. Mas não se passa o mesmo com o seu vizinho, a Espanha.

Em outubro de 2008, a polícia de Sevilha prendeu um grupo que mandava modificar as armas em Portugal e as reimportava clandestinamente. Na gíria espanhola, estas armas traficadas sempre se chamaram “portuguesas”.

80 euros para transformar uma arma na Internet

As armas também são modificadas em Espanha. Assim, a polícia da região de Múrcia interveio recentemente contra um grupo que tinha uma oficina no sul do país. Segundo Alfredo Perdiguer, do sindicato de polícia espanhol, na Internet há uma grande oferta de serviços de transformação de pistolas. E a partir de 80 euros.

Enquanto a fonte Tanfoglio parece ter secado, novas vias alternativas se oferecem aos traficantes: assim, a polícia sueca confiscou recentemente um considerável lote de pistolas de ar de fabricação turca que tinham sido modificadas no Kosovo. Em alguns cafés de Pristina, os traficantes pedem 80 euros por armas que cabem na palma de uma mão.

A venda de armas turcas está em grande expansão. Por exemplo, a Ekol Tuna, fabricada em Istambul por Ekol Voltran, assemelha-se muito à Tanfoglio GT 28, cuja forma não foi patenteada, ao contrário do que acontece com a parte técnica.

Turquia é um dos três principais fornecedores de armas na Europa

A polícia holandesa suspeita que Tanfoglio tenha vendido a licença e talvez também as ferramentas aos turcos, coisa que Massimo Tanfoglio nega veementemente. Os italianos olham com desconfiança para o grande crescimento do comércio de armas na Turquia. Para grande desgosto dos habitantes de Gardone, a fábrica da respeitável família Bernardelli foi comprada por turcos que, no entanto, lhe conservaram o prestigiado nome.

A Turquia constitui agora, com a Alemanha e a Itália, um dos três principais fornecedores de armas da Europa. Com crise ou sem ela, 2009 foi um ano recorde para os comerciantes de armas turcos: as exportações aumentaram 16%. Ekol Voltran ganha, todos os anos, entre 1,3 e 3 milhões de euros neste ramo de comércio e vive, em grande parte, da venda de pistolas de ar comprimido e de pistolas de alarme.

A venda de revólveres é proibida, mas a criminalidade aumenta

O responsável das exportações da Ekol Voltran, Mesut Cakici, fica, por momentos, surpreendido ao ver as fotografias das Tanfoglio e Ekol Tuna modificadas. Como explicam a enorme semelhança entre a sua própria pistola e a dos italianos? Admite, sem vacilar, que a Ekol Tuna é uma cópia perfeita. “Toda a gente sabe que vendemos uma cópia. É isso que os clientes querem.”

A Beretta, a Browning, todos os modelos célebres de pistolas são imitados pelas fábricas dos concorrentes. A patente caduca ao fim de 25 anos e, então, pode fazer-se o que se quiser. Cakici sabe, também, que é possível encontrar a sua Ekol Tuna na Holanda, transformada em arma verdadeira? “Mentiria se dissesse que nunca antes tinha ouvido falar de tais práticas.”

Na Europa, cada arma fabricada ou importada tem de ser submetida a testes e aprovada por laboratórios de ensaios do Estado. A Turquia não tem um organismo desses; a única obrigação a que Cakici está sujeito é a de transmitir os números de série das suas pistolas, duas vezes por ano, à polícia turca.

“Para os turcos é fácil”, comenta Massimo Tanfoglio. “A União Europeia impõe-nos cada vez mais regras. Todas as autorizações são controladas pela polícia e cada uma das armas sai do país com o seu próprio bilhete de identidade. Mas os criminosos não se ralam, Basta vermos a Grã-Bretanha: desde 1998, a venda de revólveres é completamente proibida, mas a criminalidade não pára de aumentar!”

Assim se fecha o ciclo da história: o combate de Veneza contra os turcos esteve na origem do desenvolvimento da indústria de armas de Gardone, há 500 anos. E, agora, os habitantes da pequena cidade são derrotados pelos turcos, com as suas próprias armas.

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