Na zona antiga de Nicósia, em abril de 2013.

O resgate é doloroso

Uma delegação da troika está em Chipre até ao final de julho para controlar a concretização de um plano de resgate decidido na primavera. Entre a população, já se fazem sentir as consequências da terapia para pôr em ordem as finanças do país. Excertos.

Publicado em 22 Julho 2013 às 16:15
Na zona antiga de Nicósia, em abril de 2013.

O marido abre a porta em calções e chinelos. A mulher está no quarto, deitada, numa cama articulada. Tem sombra nos olhos, brilho nos lábios. A enfermeira Barbara Pitsillides traz-lhe uma almofada adequada. “A náusea já passou?”, pergunta.

Não se lembra das náuseas matinais. A memória foge-lhe. Apareceram-lhe metástases no cérebro. “Estamos a lutar há dez anos. Queremos lutar outros dez anos”, diz o marido, olhando-a, silenciosa, a tentar sorrir.

Dedica cada minuto do seu dia a cuidar da mulher com quem se casou há 40 anos. Assusta-o a ideia de cometer algum erro. Dá-lhe segurança a ligação à equipa da Associação de Doentes de Cancro e Amigos. A qualquer altura pode telefonar-lhe a esclarecer uma dúvida, qualquer dúvida. Foi ela que lhe trouxe a cama articulada, a cadeira de rodas, o balão de oxigénio portátil.

Barbara não sabe até quando será possível continuar a levar o hospital a casa de quem tenta fintar um cancro.
Os donativos caíram a pique desde que, em março, o executivo da República de Chipre e a troika (UE-BCE-FMI) negociaram um empréstimo de dez mil milhões de euros que implica a redução do sector bancário: o Banco Popular (Laiki), o segundo maior do país, seria dividido entre “banco mau” e “banco bom”; o “mau” desapareceria; o “bom” seria absorvido pelo Banco de Chipre, o maior; haveria então um corte nos depósitos acima dos 100 mil euros e perdas para accionistas e credores.

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Visto dos Estados Unidos

O suave rebentamento da zona euro

“O rebentamento da zona euro – que os líderes europeus evitaram a todo o custo durante três anos – começou?”, pergunta o New York Times.

O diário norte-americano escreve que depois da instauração do controlo de capitais em março passado, que impede qualquer transação para fora de Chipre, o euro cipriota é diferente do resto da zona euro.

Posto em prática na altura do anúncio do plano de resgate de Chipre, para evitar uma fuga de capitais, esse controlo deveria durar uma semana, lembra o New York Times. Mas já dura há quatro meses e foi prolongado até à restruturação do Bank of Cyprus, prevista para o final de setembro e até ao regresso da confiança no sistema bancário do país.

Enquanto o Presidente cipriota Nikos Anastasiadis, citado pelo jornal, afirma que o seu país, de facto, “já está fora da zona euro”, o economista e diretor do Cyprus International Institute of Management, Théodore Panayotou, considera que separar Chipre do resto da zona euro é, para os responsáveis europeus, uma maneira de testarem uma moeda comum que já nada tem de comum.

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