
Durante estas semanas, as vitórias da seleção espanhola e a evolução da sua tática de jogo desde a derrota frente à Suíça serviram para estabelecer paralelismos entre a boa gestão do compromisso nacional e o estado geral do país. É uma reação inevitável pois, numa época de crise, a seleção espanhola oferece momentos de euforia e autoestima quando não há grandes motivos para isso antes e depois de cada jogo. Embora seja legítimo perguntar por que razão a Espanha não funciona como a sua seleção e os seus valores não são os do país inteiro, da classe política e, inclusivamente, da sociedade, seria preferível transformar tanto juízo de valor em relação ao Governo numa mensagem para os cidadãos. Porque a mensagem da solidariedade, do trabalho em equipa, da ambição saudável, das ideias claras cabe, principalmente, à sociedade espanhola.
"Uma Espanha que só teria a ganhar se tivesse os dirigentes que merece"

Mas também não seria razoável que esta fase de exibição da bandeira e das cores nacionais terminasse a partir de agora, como se o vermelho e o amarelo fossem as cores da seleção e não fossem as cores de Espanha. Seria uma maneira de recuperar um patriotismo positivo e construtivo, impossível de sentir quando os cidadãos se envergonham da sua bandeira como símbolo de união e identidade nacional. Esta explosão cívica de “espanholidade” deveria ser olhada pela sociedade como um valor enriquecedor, num momento em que a Espanha carece de bases firmes para uma recuperação que não é apenas económica. E também deveria ser corretamente interpretada pela classe política, à direita e à esquerda, como o reflexo de um país que, se não dá mais a cara, se não se mostra mais vezes com esta alegria, esta autoestima e esta certeza, talvez não tenha os dirigentes que merece para o fazer.
Foi preciso esperar por um Mundial de futebol para se gerar um estado de ânimo perante a adversidade, um sentimento de patriotismo integrador. Pois muito bem! Teve de ser a seleção nacional a mostrar aos espanhóis que, como Nação, não há limites para além dos que impõe a si própria.
Opinião
Um modelo de sociedade
Com o êxito de uma “verdadeira integração de oito jogadores procedentes do futebol catalão, a equipa nacional espanhola“ deu o bom exemplo daquilo que [o filósofo espanhol] Ortega definiu como uma nação: ‘Um estimulante projeto de vida em comum'”, considera, no diário [El Mundo](http://www.elmundo.es/), o catedrático Ignacio Garcia de Leániz. Para este sociólogo de Comportamento Humano, os Roja “deram um inestimável prestígio à Espanha como marca, num momento crítico”, demonstrando “produtividade, qualidade e inovação […], três dimensões que faltam atualmente à nossa economia”. Quanto ao selecionador nacional, Vicente del Bosque, manifestou, segundo Garcia de Leániz, “uma liderança calma e deu uma lição de prudência”. O que, quanto a ele, é o oposto do que a Espanha tem demonstrado nos últimos anos: “um triunfo do parecer sobre o ser, que explica a profunda crise económica, social e institucional que sofremos”.

