O primeiro-ministro polaco Donald Tusk (esq.), com a mulher, dirige-se aos apoiantes após anunciar as primeiras projeções das eleições legislativas de 9 de outubro, em Varsóvia

Polónia - Tusk reeleito mas sem estado de graça

Donald Tusk pode ser o primeiro dos primeiros-ministros da história da Polónia pós-comunista a conseguir ser eleito para um segundo mandato. A Imprensa polaca congratula-se com a vitória da coligação Plataforma Cívica, mas avisa que estão para chegar tempos difíceis.

Publicado em 10 Outubro 2011 às 13:39
O primeiro-ministro polaco Donald Tusk (esq.), com a mulher, dirige-se aos apoiantes após anunciar as primeiras projeções das eleições legislativas de 9 de outubro, em Varsóvia

Com 93% dos votos contados depois das eleições gerais de 9 de outubro, a Plataforma Cívica (PO, centro-direita) lidera claramente, com 38,9% de votos, enquanto o Direito e Justiça (PiS), do populista Jarosław Kaczyński, tem apenas 30%. Surpreendentemente, a terceira força política no novo Sejm (Parlamento polaco) será o partido de esquerda, anticlerical e pró-gay Movimento Palikot (RP), que conseguiu reunir 9,9% dos votos. Em quarto lugar aparece o Partido do Povo Polaco (PSL, literalmente Partido dos Camponeses Polacos) com 8,6%. Com apenas 8,2%, a pós-comunista Aliança de Esquerda Democrática, foi quem teve menos votos. A manterem-se estes resultados, a Polónia poderá ter mais quatro anos de coligação PO-PSL.

Afirma o editorial da Gazeta Wyborcza:

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Não foi um triunfo, foi uma vitória. Mais uma vez ganharam aqueles que querem uma Polónia moderna e aberta. […] Os eleitores rejeitaram a loucura do PiS e confiaram na previsível Plataforma Cívica. Acreditam que conseguirá enfrentar os tempos difíceis que aí vêm. É uma enorme responsabilidade. – Gazeta Wyborcza

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Para o diário conservador Rzeczpospolita, o sucesso da Plataforma Cívica deve-se, em parte, às excentricidades do líder da oposição, Jarosław Kaczyński, que durante a campanha eleitoral comentou que a eleição de Angela Merkel como chanceler alemã “não era uma pura coincidência” o que, para a opinião pública polaca significou que tinha sido a Stasi da Alemanha de Leste que a tinha levado ao poder. O líder do PiS recusou, também, um debate público com o primeiro-ministro Tusk.

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O PiS não conseguiu apagar o seu rótulo de partido radical e imprevisível”, razão pela qual “os eleitores concluíram que, apesar de todas as suas falhas e fraquezas, o PO garantirá a estabilidade. Os eleitores apreciam o facto de o nível de vida geral ter, nuns casos, aumentado ou, noutros, em comparação com outros países da Europa, ter diminuído muito pouco. Mas, acima de tudo, votaram como votaram porque Tusk não é Jarosław Kaczyński. – Rzeczpospolita

Entretanto, o diário económico Dziennik Gazeta Prawna espera que Donald Tusk acabe o que começou e não arranje mais “desculpas” para adiar os cortes no setor público:

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Não há álibi. O PO é o primeiro partido, desde 1989, a manter o poder. Não podem fingir que o presidente está errado, que a oposição é desestabilizadora, que as reformas têm de esperar porque a situação é incerta. Pode mudar-se e endireitar-se um país em oito anos. Respeitarmos Tusk daqui a quatro anos vai depender da sua coragem. – Dziennik Gazeta Prawna

O politólogo Aleksander Smolar concorda com esta opinião do diário económico, numa entrevista à Gazeta Wyborcza na qual afirma que:

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O mero facto de um partido ganhar a reeleição não pode ser interpretado como um sucesso histórico. É uma sorte, um cheque em branco entregue a Tusk e ao PO por grande parte da sociedade polaca. – Gazeta Wyborcza

A maior surpresa das eleições de domingo foi, sem dúvida, o excelente resultado obtido pelo recentemente formado Movimento Palikot. “Podíamos chamar a isto um milagre, se não fosse o facto de não acreditarmos em Deus”, afirmou o porta-vos do RP, Robert Leszczyński, depois de anunciadas as primeiras previsões de resultados. Janusz Palikot, fundador do Movimento e antigo militante do PO, conseguiu mobilizar ativistas gay (o primeiro transsexual a entrar no Sejm [Parlamento polaco] está nas listas deste partido), feministas e todos os que não se reveem no sistema político. Embora considere que o programa de Palikot é "penosamente lacónico" e a sua equipa "uma misturada de gente", a Gazeta Wyborcza escreve que:

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Muitas das pessoas que estão zangadas ou desiludidas com o tradicionalismo, a intolerância e os costumes patriarcais silenciosos, encontraram nele o seu porta-voz. Também é apoiado por quem já não confia nos políticos e procura quem lhe volte a dar esperança. – Gazeta Wyborcza

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