A alma humana e o espírito capitalista

Ao começar a cimeira do G20 em Pittsburgh, o escritor Jeremy Seabrook escreve nas páginas do diário The Guardian que, para resolver problemas planetários como o aquecimento global e a crise económica, temos de pôr de parte a avidez que o mercado induz em nós.

Publicado em 24 Setembro 2009 às 15:52

Puritanos e moralistas identificam por vezes o consumismo, a cultura dos prémios, a sociedade de consumo ou a filosofia do viva-agora-pague-depois como "ganância". Mas estes, como todos os demais pecados e vícios, foram recuperados pela deturpada ordem moral do capitalismo. Muito do que era considerado fraquezas humanas foi transformado em virtudes económicas. A cobiça foi transformada em ambição, a inveja reaparece agora como uma manifestação de saudável espírito competitivo, a gula passa a ser apenas um desejo natural de ter mais e a cobiça uma expressão necessária da nossa verdade humana mais profunda. A tentação deixou de ser um impulso a que devemos resistir: é nosso dever rendermo-nos a ela em nome da mais elevada das finalidades, a "confiança do consumidor”.

Quando aquilo que, numa época mais primitiva, era considerado atributos negatvos é magicamente resgatado para brilhar como virtudes, é fácil persuadirmo-nos de que isso é uma manifestação da natureza humana. A partir daí, estamos autorizados a ser imoderados, autocomplacentes e gananciosos. A moralidade do crescimento económico e da expansão invadiu a psique, os recônditos do espírito onde os indivíduos se esforçam por ser boas pessoas; e reina agora como a revelação final do que significa ser-se humano. O êxito da sociedade industrial depende desta desagradável interpretação da "realidade". "Não se pode alterar a natureza humana”, é o primeiro artigo do credo do capitalismo; um reconhecimento vagamente consternado de que os seres humanos são "essencialmente" egoístas e irremediavelmente "irrecuperáveis".

O desejo mórbido do inatingível

Se o primeiro artigo do capitalismo é a impossibilidade de alterar a natureza humana, o segundo tem que ver com a implacável transformação, dominação e pilhagem do restante mundo natural. A natureza tem sido infinitamente adaptada, de modo a ser usada e moldada para todos os fins a que a “Humanidade” se propõe. Continentes inteiros têm sido subjugados, florestas abatidas, cursos de água desviados, a terra aviltada, os mares saqueados até à extinção; apenas a natureza humana permanece triunfante, invencível.

A convicção de que o mundo natural é nosso e podemos fazer dele o que quisermos, mas a natureza humana permanece hermeticamente fechada à mudança, conduziu directamente a crises globais múltiplas – a alteração climática, a desigualdade crescente e, menos visível mas talvez mais significativo, o desejo penetrante, demolidor e mórbido do inatingível. Reconhece-se hoje que os distúrbios da biosfera, a dependência do progresso e os efeitos acumulados da actividade humana, conduziram directamente ao aquecimento global; mas tem havido – compreensivelmente – uma relutância muito maior em reconhecer o papel de uma natureza humana inalterável na materialização deste estado lastimável.

A ficção da natureza humana vocacionada para o mercado

Esta equação não pode ser modificada selectivamente, visto tratar-se, de certo modo, de uma visão holística do mundo. Qualquer resolução das ameaças levantadas pela globalização exige uma reversão da ideologia: é necessário adoptar o oposto do fatalismo cínico assumido sobre a natureza da humanidade, porque isso conduziu ao imobilismo e ao sentido de impotência para debelar eficazmente a crise actual.

A tarefa mais urgente é enfrentar essa ficção sobre a natureza humana, que é encarada como o único ponto fixo na constante agitação febril da mudança e do crescimento. A natureza humana não é com tem sido pintada pelos profetas da justificação da ideologia económica. Não se pode impelir as pessoas a comportar-se de uma determinada maneira e depois avalizar o resultado dessa conduta por ser inerente à natureza humana.

Atacar as razões da pilhagem do planeta

Se não há qualquer espaço público para outros atributos da Humanidade, esta visão desolada abafará inevitavelmente a nossa propensão para a generosidade, despojamento, sacrifício e bondade. Sabemos que essas coisas existem: só que estão barradas, como convidados proscritos do sombrio banquete económico, abrindo-se a excepção a umas sobras em migalhas de filantropia. Implacável, egocêntrico, individualista – se estas características são recompensadas, quem não as cultivará, deixando as virtudes humanas ser praticadas de forma furtiva, no secretismo da vida privada, onde foram encarceradas como desmancha-prazeres do jogo económico?

Talvez haja, para os ricos, outras maneiras de ser próspero e, para os pobres, outros caminhos para sair da pobreza do que aqueles que temos visto. Mas permanecem obstruídos pela convicção inabalável de que as disciplinas da economia de mercado – essa aliança da capacidade destrutiva da natureza e da imutabilidade da natureza humana – continuam a ser a única saída para a realização dos nossos sonhos mais profundos e o único impeditivo para os nossos piores pesadelos.

É hoje geralmente reconhecido que a pilhagem da natureza tem de cessar. Mas sem confrontarmos a fonte dessa devastação, as nossas possibilidades de sobrevivência vão-se tornando cada vez menores, a cada dia que passa. Levantam-se algumas questões radicais, a menor das quais não será saber porque se tornou tão difícil distinguir entre a natureza da industrialização e a industrialização da nossa própria natureza.

G20

A governação mundial ainda está por construir

Reunido pela terceira vez num ano marcado pela crise mundial, o G20 é considerado com cada vez maior frequência, "a nova sede de governação do mundo", escreve no diário Le Figaro Nicolas Tenzer, presidente de um círculo de reflexão (Iniciativa para o Desenvolvimento da Especialização Francesa em Assuntos Internacionais e Europeus). Desde a sua criação, há dez anos, o G20 suplantou claramente o G7 e o G8, tornando-se a instância com maior legitimidade para tratar das questões económicas à escala planetária. Só que "o G20 não é uma instância perfeita e capaz de resolver todos os assuntos", recorda Nicolas Tenzer. É informal, não tem suficientemente em conta os interesses dos países em desenvolvimento e não é capaz de fazer desaparecer “por um golpe de magia” as rivalidades dos seus membros. Enquanto o G20 não encontrar uma "estrutura-reflexo" nos organismos activos da finança internacional (FMI e Banco Mundial), haverá "progressos apreciáveis" mas nenhuma "revolução".

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