Padres ortodoxos durante a eleição do arcebispo de Atenas, a 20 de Fevreiro de 2008. (AFP)

A Igreja recusa fazer caridade

A braços com um défice significativo, o Governo socialista grego decidiu taxar o património da poderosa Igreja Ortodoxa. Mas esse Estado dentro do Estado, principal proprietário fundiário do país, faz ouvidos moucos.

Publicado em 24 Novembro 2009 às 18:52
Padres ortodoxos durante a eleição do arcebispo de Atenas, a 20 de Fevreiro de 2008. (AFP)
O descontentamento aumenta nas relações entre o Estado e a Igreja, duas instituições que não são separadas. A poderosa Igreja da Grécia não apreciou a vontade expressa pelo Governo socialista de impor uma taxa [de cerca de 600.000 euros] sobre o seu património imobiliário, e recusa-se simplesmente a pagar.

“A Igreja da Grécia contribui para o Estado quando este funciona. Se não, não há nenhuma razão para fazê-lo…”, reagiu o padre Theoklitos de Joannina [noroeste do país]. O responsável financeiro da Igreja da Grécia, afirma que “este imposto levará alguns membros da Igreja ao sobreendividamento” e não vê porque se há-de taxar a Igreja, quando “não há guerra ou catástrofe natural para a qual contribuir. É para políticas económicas conjunturais que nos convidam a contribuir. Está fora de questão pagar a factura dos outros!”

O padre Theoklitos sublinha, além disso, que “o Estado apreendeu por várias vezes os bens da Igreja”, a última das quais em 1952, altura em que foi assinado um contrato, que se mantém em vigor, entre as duas instituições, enumerando as obrigações de cada uma. Afirma que o património fundiário da Igreja ascende a 702.160.000 euros, de acordo com as mais recentes estimativas do Banco da Grécia, ou seja apenas 4% do seu património total. E dispõe apenas de 9 milhões de euros em acções.

A questão da separação entre a Igreja e o Estado

Hoje, o Estado tenta de novo taxar os gregos e o resultado vai ser deplorável. A Igreja não se recusa a participar nos impostos, mas exige que estes recaiam sobre as suas propriedades exploradas ou exploráveis. O decreto anunciado “trata-nos como uma organização de caridade [ao estipular uma doação ao Estado sob a forma desta taxa]. Somos uma instituição”, recorda o porta-voz. O corpo eclesiástico considera esta decisão injusta, porque ignora que “a Igreja gere mais de 800 estabelecimentos para necessitados”, insiste o padre Theoklitos.

Estas mensagens são claras: a Igreja não quer confundir os papéis e fazer caridade. E justifica assim a sua recusa em submeter-se a esta taxa. Por outro lado, as contas do Estado estão no vermelho. O ministro da Economia falou mesmo de “situação de emergência”, com o défice a atingir os 12% do PIB. A poderosa Igreja da Grécia, a maior proprietária fundiária do país, é, por conseguinte, a principal visada. O primeiro-ministro socialista, Georges Papandreou, está decidido a enfrentar a Igreja, como o fez o seu antecessor socialista Costas Simitis, em 1999, em relação à inclusão da religião nos bilhetes de identidade nacionais [contrariamente ao que desejava a Igreja, a menção deixou de ser obrigatória].

Talvez fosse preferível “separar a Igreja do Estado”, replica o padre Theoklitos. “Podíamos ficar com menos padres, mas não teríamos funcionários [na Grécia, os padres são nomeados pelo Governo]. Só podemos recriminar-nos de nós próprios, porque quisemos frequentemente transformar o púlpito em política”. Entretanto, o debate prossegue animado.

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