Após o referendo na Grécia

“A odisseia está longe de acabar”

A vitória esmagadora do “não”(“OXI” em grego) no referendo de domingo indica claramente que os gregos querem pôr um fim às medidas de austeridade forçadas pelos credores internacionais e os parceiros da zona euro. Embora em termos gerais saúde este impulso democrático, a imprensa europeia realça que um acordo sobre um novo plano de ajuda é indispensável.

Publicado em 6 Julho 2015 às 17:20

“A odisseia está longe de acabar”, titula o The Guardian, cujo editorialista responsável pela secção de economia Larry Elliott lança um aviso aos dirigentes da zona euro decididos a impor austeridade à Grécia apesar do “não” de domingo. “Basicamente”, afirma Elliot, “devem recorrer menos ao pau e mais à cenoura” através do alívio da dívida. Mesmo que os dirigentes cheguem a acordo, a crise terá implicações inquietantes a longo prazo –

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A Grécia destacou as fraquezas estruturais do euro, uma abordagem uniforme que não se adequa a um conjunto de países tão diferentes. Uma das soluções seria criar uma união fiscal ao lado da união monetária. […] No entanto, isto requereria precisamente o tipo de solidariedade que se fez notar nas últimas semanas devido à sua ausência. O projeto europeu estagnou.

A mensagem dos gregos é clara, escreve Bart Sturtewagen, chefe de redação do De Standaard. Após uma semana com os bancos (quando todos) encerrados e de danos consideráveis que tal causou no quotidiano empresarial e na economia, “uma larga maioria inesperada decidiu ainda assim correr o risco de dizer não ao plano de ajudas da União Europeia e do FMI”. Mesmo que o preço a pagar seja demasiado elevado e que as consequências sejam um forte golpe para a zona euro e a União Europeia no seu conjunto, Sturtewagen acrescenta:

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A tentação de não continuar a apoiar os gregos é perfeitamente compreensível. Mas é da maior importância que mantenhamos a cabeça fria. Foi a dialética do crime e o castigo que nos levaram a esta situação desastrosa. Uma abordagem que se mostra cada vez mais inútil. A questão da renegociação da dívida não pode voltar a ser adiada. Até FMI sabe disso. Se Tsipras quer realmente fazer algo com a sua vitória, precisa de provar ao seu país que não quer apenas receber dinheiro, mas também mudar a sua atitude e a do seu Governo. Votar não foi uma provocação, mas infelizmente essa foi a parte mais fácil.

Atenas está à beira de uma Grexit após um referendo no qual os gregos rejeitaram os termos do plano de ajuda, mas “ainda existe um raio de esperança de que não se volte ao dracma”, escreve Tomasz Bielecki no Gazeta Wyborcza. O editorialista realça que cabe agora a Paris e Berlim decidir o que acontecerá a seguir:

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Uma nova ajuda para a Grécia tem de ser aceite pelos 18 países membros da zona euro e a Alemanha não é a mais dura deles todos. No entanto, se a chanceler Angela Merkel fizesse um gesto na direção dos gregos, deveria conseguir acalmar a cólera dos holandeses, dos espanhóis e dos lituanos, que estão cansados da teimosia dos gregos. Não há certeza de que seria bem-sucedida, pois o nível de emoções é elevado dos dois lados que a situação poderia facilmente ficar fora do controlo.

“A UE tem de minimizar os danos causados pelo Governo de Tsipras”, escreve Stefan Ulrich. Segundo este, a UE deverá conceder uma ajuda de emergência à Grécia; por cada novo grande programa de ajudas, a Grécia deverá propor reformas ou “o euro poderá muito bem viver sem eles”. Stefan qualifica o resultado do referendo como um “não ao compromisso”:

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Os gregos são apenas um povo no seio da zona euro. Podem decidir de forma soberana o seu destino, mas não podem ditar nada aos outros povos e aos seus Governos. Não podem sobretudo obrigar os outros países da zona euro a dar-lhes milhares de milhões de euros sem condições.

Tendo em conta o resultado do referendo, o SME é cético quanto à possibilidade de um acordo sobre a crise grega e prevê um futuro trágico para o país. O dia 5 de julho ficará para a história da mesma forma que o 11 de setembro ou a Lehman Brothers, uma vez que ao rejeitarem o programa previsto pelos credores, os gregos iniciaram um novo capitulo na história da Grécia, da zona euro e até mesmo da União Europeia, afirma o editorialista do diário liberal Peter Schutz. Segundo este, a Grécia poderá acabar por deixar o euro e o abismo entre o país, a França e a Alemanha impedirá qualquer possibilidade de coabitação futura.

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Os gregos experienciarão um Armageddon ou uma catástrofe muito similar, pois o sistema financeiro pode colapsar hoje e a importação de bens de primeira necessidade, como medicamentos, pode ser interrompida. […] Além disso, podem esperar uma onda de falências acompanhada por despedimentos em massa.

Para o diário espanhol, a vitória do “não” ontem na Grécia representa um “sério desafio para o projeto europeu” e o momento exige “uma resposta tática e firme”:

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A Europa enfrenta um momento decisivo. Cada passo é agora arriscado e delicado. Mas é importante não deixar o futuro nas mãos de um grupo de demagogos em Atenas e de muitos outros, tanto de esquerda como de direita, de vários países do continente que gostavam de se juntar a eles nos próximos dias. O resultado do referendo exige habilidade, sabedoria e competência a todos, desde o Governo de Tsipras à zona euro, para que a política impere sobre os automatismos e para evitar o colapso súbito da economia grega. […] O imbróglio é enorme, tanto em termos económicos como democráticos. É preciso combinar a vontade dos gregos com a dos cidadãos europeus que têm a desvantagem de não terem realizado um referendo, mas que são representados por Governos igualmente legítimos.

Jean-Christophe Ploquin explica que o “não” ao referendo não resolve o problema do país. Na verdade, “depois da corrida às urnas, os gregos devem encontrar urgentemente uma forma de evitar a falência dos seus bancos e do seu Estado”. Além disso,

depois de ter solicitado o parecer dos seus eleitores, a Grécia será novamente confrontada com outra realidade democrática: a legitimidade dos Governos dos outros 18 países da zona euro, cuja opinião pública e os parlamentos estão a ficar impacientes e preocupados. […] Todos os dirigentes europeus desconfiam agora de um primeiro-ministro com jeito para se esquivar aos problemas e do qual não sabem até que ponto vai a sua contestação do sistema liberal em vigor. Pensará Alexis Tsipras que a Grécia pode sair desta situação sozinha? Estará ele empenhado na coesão europeia, apesar das suas vicissitudes?

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