A vida é tão obscura como um thriller

Um romance sobre um assassino em série, em Atenas, é tão real que o autor, Petros Markaris, foi obrigado a avisar que não devia ser imitado. A razão: é um livro sobre a elite grega que foge aos impostos e as vítimas de um sistema corrupto.

Publicado em 16 Maio 2012 às 10:29

Um assassino em série ataca nos subúrbios ricos de Atenas com uma escolha idiossincrática de vítimas. São todos gregos ricos que não pagam impostos e os seus corpos foram espalhados pelas ruínas da cidade antiga. Mortos por envenenamento, com cicuta, o método escolhido para matar Sócrates.

A Grécia está a passar por uma crise seríssima, que inclui um significativo aumento do crime, mas esta espécie particular de terror é quase toda ficção. Trata-se do tema do último bestseller de Petros Markaris, que é um conhecido autor de livros de suspense e, também, comentador social, na Grécia. A sua influência é tal que se tornou uma das vozes mais citadas em questões de crise.

Os assassinatos que estão no centro do livro de Markaris, I Pairaiosi, ou A Liquidação, dizem muito à massa de leitores furiosos com a elite que não paga impostos, cujo comportamento ajudou a pôr a Grécia de joelhos.

Muitos leitores, tal como o herói-narrador do livro, o Inspetor Costas Haritos, sentem-se divididos entre a repulsa e a admiração secreta pelo assassino, que se chama a si próprio O Cobrador Nacional de Impostos, e que exige dinheiro não para si mas para os cofres do Estado. E é porque o público simpatiza com o assassino que Markaris achou que era prudente haver uma nota, na contracapa do livro, que diz o seguinte: “Aviso: Este romance não deve ser imitado”.

“Quis contar a verdadeira história da crise, como se desenvolveu e como afeta a vida das pessoas comuns”, disse Markaris numa entrevista que deu no seu apartamento de Atenas. O autor defende que as histórias policiais são a melhor forma que existe de comentário social e político, porque muito do que hoje está a acontecer na Grécia é do foro criminal.

Uma vida inteira sem pagarem impostos

“Em grego antigo o título significa o fim da vida, a prestação de contas de uma vida inteira”, explicou o autor de 75 anos. “Mas em grego moderno significa um método de aumento da receita fiscal. Em troca de um pagamento às finanças – a liquidação – o Estado concede uma amnistia a quem não pagou os seus impostos.”

Nascido em Istambul, de pais grego e arménia, Markaris instalou-se em Atenas aos 30 anos e ainda hoje vê os problemas internos da Grécia com os olhos de um estrangeiro. “Este sistema foi sendo construído dia a dia, desde o início do século [XX] e desenvolveu-se muito nos últimos trinta anos”, diz o autor.

O sistema em questão é normalmente conhecido por clientelismo. Envolve o financiamento aos dois principais partidos pela elite grega – os armadores, os médicos, os advogados e os jornalistas de topo – que, em troca desses pagamentos, conseguem empregos públicos para os seus filhos e filhas, bem como uma vida inteira sem pagarem impostos. Era uma situação insustentável que foi sendo encoberta nas contas do Estado e que ficou espetacularmente a descoberto quando o país deixou de conseguir ir financiar os seus maus hábitos aos mercados.

Quando o Governo cessante foi atrás dos médicos de Atenas, numa tentativa tardia de conseguir dinheiro, descobriu que a maior parte deles não pagava impostos porque declarava rendimentos ligeiramente abaixo do limite mínimo coletável de 12 mil euros, apesar de guiarem carros que valem várias vezes essa quantia. O Governo caiu e as eleições da semana passada trouxeram apenas impasse e a perspetiva incerta de um novo ato eleitoral.

Famílias escondem os casos de suicídio

Entretanto, os ricos continuam a esgotar os melhores bares e restaurantes da cidade, enquanto a classe média e trabalhadora enfrenta a pobreza. O próprio Markaris vive num modesto apartamento num edifício centro de Atenas que, claramente, já conheceu melhores dias. Agora, a raiva está estampada nas paredes, em forma de graffiti que ameaçam de expulsão, ou de coisa pior, os imigrantes.

As suas observações sobre a evolução da crise enchem os seus livros. A Liquidação abre com uma citação de um antigo Presidente, Konstantinos Karamanlis, que descreve a Grécia como “um gigantesco manicómio”. No primeiro capítulo, quatro senhoras idosas suicidam-se, deixando atrás de si um bilhete em que dizem que, por causa dos cortes nas suas pensões, deixaram de poder comprar medicamentos ou de ir ao médico e, assim, decidiram deixar de ser um fardo para a sociedade. Nos últimos dois anos têm sido noticiados casos semelhantes a este. As estatísticas oficiais dizem que a taxa de suicídios aumentou 22% mas, muito provavelmente, subestimam o problema. Na maior parte das vezes, as famílias católicas ortodoxas escondem, por vergonha, os casos de suicídio.

Ao descobrir os motivos do autoproclamado Cobrador Nacional de Impostos, Haritos diz secamente que se todos os gregos que fogem aos impostos fossem assassinados a população ficaria reduzida a uns quantos “assalariados, desempregados e donas de casa”.

“O sistema que governou o país, após a queda da junta militar, morreu”, diz Markaris. “As medidas de austeridade destruíram o cenário político. A questão é saber se a Grécia consegue sobreviver às medidas de austeridade e se a Europa consegue sobreviver a um colapso grego. Não sei quais são as respostas.”

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