Como Baku conquistou uma certa respeitabilidade

A organização da edição 2012 da grande quermesse pop pelo Azerbeijão, longe de ser um modelo de democracia, suscita reservas na Europa. E são inúmeros os que, como este jornalista estoniano, denunciam a complacência em relação ao regime de Baku.

Publicado em 25 Maio 2012 às 10:18

O Azerbaijão, que acolhe a partir de 22 de maio o Festival Eurovisão da Canção 2012 [a final terá lugar sábado, dia 26 de maio], tem-se oferecido sempre para organizar eventos de natureza internacional. Baku já se ofereceu para organizar os Jogos Olímpicos de 2016, mas a sua candidatura não se manteve. Será preciso mais para desencorajar o país que apresenta hoje o processo de candidatura aos JO de 2020 e para o Campeonato Europeu de Futebol da mesma altura.

Isto indica que o Azerbaijão se sente à vontade e esperado nos fóruns internacionais. Considera-se "um parceiro estratégico" tanto dos EUA como da União Europeia. No próprio parlamento estónio, há 14 pessoas com assento no seio do grupo de amizade para com o Azerbaijão. Os estónios que defendem os Direitos do Homem no ex-bloco de Leste evitam pronunciar-se sobre o Azerbaijão. [Para eles] Minsk, Moscovo e, nos últimos tempos, Kiev são assuntos inquietantes em matéria de Direitos do Homem, mas Baku não.

Porquê? O Azerbaijão será diferente, por exemplo, da Bielorrússia? Baku não é a capital de uma ditadura? Fazer esta pergunta é já responder-lhe e, no entanto, fazemos de conta que não percebemos. Os opositores ao Governo são conhecidos porque não foram completamente condenados ao silêncio, mas não têm qualquer margem de manobra.

O Estado onde vai decorrer uma divertida festa internacional é, na realidade, um sítio onde há uma dezena de prisioneiros políticos e jornalistas presos. E não são menos numerosos que na Bielorrússia. Fazem-se acordos com o Azerbaijão por causa do petróleo. Contrariamente a muitas outras ex-repúblicas soviéticas, o país dos azeris não é pobre. O Cazaquistão também é um país tratado com respeito embora seja igualmente um país autoritário.

E mesmo que não tenha boa reputação, sabemos que o dinheiro compra quase tudo. Há sempre alguém que conhece alguém em Londres ou que trabalha num gabinete que aceita fundos de um país autoritário, contribuindo assim para a criação de uma imagem dourada. Ou então de uma imagem que não faça pensar na vida e na realidade do poder nesse país.

Reações no Azerbaijão

Eurovisão sob o signo da contestação

“O aproximar do Festival da Eurovisão é uma dor de cabeça para as autoridades azeris!” adiantava, recentemente, o Zerkalo, o diário de Baku. Enquanto Michelle Roverelli, porta-voz do célebre festival internacional da canção, se insurgia contra “a politização deste evento festivo”, choviam críticas e ameaças de todos os lados em relação ao bom desenrolar do festival, nomeadamente da Alemanha e de certas ONG internacionais, que apelaram ao boicote.

No interior do país, os defensores dos direitos humanos e a oposição manifestam-se, há semanas, para chamar a atenção da comunidade internacional para “a perseguição aos opositores, os entraves à liberdade de manifestação, de expressão e de imprensa, a ausência de reformas económicas, a situação deplorável dos Direitos do Homem”. Pela primeira vez numa concentração, os manifestantes exigiram a demissão do Presidente Ilham Aliev. Está prevista uma série de manifestações no decorrer do Festival. Os islamitas radicais, por seu turno, deram a conhecer num comunicado divulgado no site azeri Aze que a Eurovisão era “um pesadelo para todos os muçulmanos” e que os convidados e os participantes seriam alvo de ataques.

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