Europa, para onde vais tu?

Como provou a abstenção das últimas eleições europeias a UE tem pouco poder de sedução. Quais são as razões deste desamor? Como é que se pode fazer renascer o interesse dos cidadãos por este projecto? Devemos prosseguir com o alargamento ou aprofundar a União? Políticos e politólogos europeus lançam pistas para uma reflexão.

Publicado em 3 Julho 2009 às 16:37

Como dar novo encanto à Europa? É a pergunta feita pelo diário Libération a Jacques Delors e a Marcel Gauchet. Numa entrevista cruzada, o antigo presidente da Comissão Europeia e o historiador e filósofo tecem uma apreciação amarga da situação da Europa e do desinteresse que a Europa suscita.

“O perigo seria querer reabilitar a imagem de uma Europa que, por natureza, não possa aspirar a isso“, previne Marcel Gauchet. Na sua opinião, é necessário, mais modestamente, voltar a dar um sentido a um projecto elaborado em condições que se alteraram completamente. Hoje, a questão que se põe é sobretudo a do lugar da Europa no mundo.

Pela sua abertura, a Europa sofre mais profundamente o choque da globalização. “A globalização levou as potências mais importantes da Europa a continuar a raciocinar em termos de potências clássicas“, lamenta Jacques Delors. Nos momentos de crise, nomeadamente, são os reflexos nacionais que prevalecem: a Alemanha, a França, a Grã-Bretanha criam soluções próprias, sem terem em conta os vizinhos. Por seu lado, Marcel Gauchet interroga-se sobre “como situar a Europa na globalização”. Se a relação dos Estados Unidos com o mundo é fortemente eivada de etnocentrismo (o que é bom para eles é bom para o resto do mundo), os europeus, observa Marcel Gauchet, têm uma grande “prática do mundo”, o que lhes dá “um trunfo intelectual a jogar na organização do policentrismo que está para vir“. Mas, para Jacques Delors, esse trunfo só poderá ser jogado se a UE se tornar mais federal e facilitar os processos de decisão. Por outro lado, sublinha ainda Gauchet, a Europa deve reinventar a sua originalidade histórica, a de uma “sociedade de cidadania cultivada”.

O problema do lugar da União Europeia no mundo tal como funciona hoje levanta outra questão, a do alargamento. É necessário integrar novos países ou aprofundar a União que existe hoje? Num texto publicado pela “fundação progressista” francesa [Terra Nova](http:// http://www.tnova.fr/index.php?option=com_content&view=article&id=790&Itemid=13) e retomado pelo diário checo [Lidové Noviny](http://www.lidovky.cz/silna-stranka-eu-rozsirovani-dj8-/ln_noviny.asp?c=A090626_000046_ln_noviny_sko&klic=232228&mes=090626_0), Michel Rocard defende a ideia de que a UE, através do projecto de alargamento, tem por vocação “contribuir para aproximar os povos”. O antigo primeiro-ministro francês vê na entrada da Turquia uma etapa determinante, “o exemplo do diálogo pacificado entre a civilização judaico-cristã e o islão“. Portanto, assegura, “o essencial não é tanto a continuidade de uma identidade europeia territorial nas suas fronteiras de origem mas a sua expansão geográfica”.

Reagindo a este texto, o politólogo checo Petr Robejsek critica esta visão poética do alargamento europeu, no Lidové Noviny, e o seu lado “amai-vos uns aos outros e expandi-vos”. Para ele, “a ideia de uma União Europeia missionária” é vazia de sentido. Vinte anos após o aparecimento da tese, hoje invalidada, de Francis Fukuyama segundo a qual a democracia se iria inevitavelmente estender a todo o mundo, a ideia de Europa desenvolvida por Rocard não é razoável, escreveu o checo. Surpreende-o que o analista francês não tome em consideração o risco que corre a União Europeia, através desta política de alargamento, “de dissolução dos seus contornos e enfraquecimento da sua coesão“. A crise financeira pôs a nu as dificuldades da União Europeia. “Em vez do mercado livre reina o proteccionismo, em vez do euro estável, o défice“, constata Petr Robejsek, que considera que a União Europeia “atravessou um Rubicão de uma dimensão impossível de gerir”. “A ideia de uma Europa onde o sol nunca se deita soa a falso“, conclui.

A menos que se tenha uma visão poética, vinda de um homem de letras. “Nada melhor do que um poeta irlandês para nos recordar a grandeza fundamental deste projecto a que chamamos União Europeia”, exulta o jornalista e historiador Timothy Garton Ash, no Guardian. Os irlandeses vão pronunciar-se de novo sobre o Tratado de Lisboa, em Outubro. Por ocasião do lançamento da campanha “Ireland for Europe”, de defesa do texto, o prémio Nobel da Literatura Seamus Heaney fez questão de se expressar. “Mexamos os lábios, os espíritos, para que novos significados irrompam“, declamou. “Não é o tipo de linguagem que se associa a um debate sobre a Europa”, lastima Garton Ash. Por seu turno, os jovens militantes do “Generation Yes” proclamam que “a UE é o nosso abrigo contra a tempestade”. A beleza da Europa, diz Garton Ash entusiasmado, é que “os jovens irlandeses, britânicos e polacos trabalham e vivem juntos em pé de igualdade – e consideram que é absolutamente normal.” Do futuro da Europa depende também o do Irão, considera. Porque o Tratado de Lisboa cria “o mecanismo institucional para uma política estrangeira europeia melhor coordenada e mais eficaz. ”

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